As Letras e eu – o meio

Oi, pessoas!

Voltei para continuar o assunto da última publicação, sobre como tem sido a experiência de estudar Letras. A princípio, contei como fui parar nesse curso a essa altura da minha vida, agora vou contar como tem sido mesmo, na prática.

Sempre que decido compartilhar experiências pessoais aqui é porque acredito que isso pode, de algum modo, ser útil para outras pessoas que estão em situações semelhantes e/ou estejam pensando em seguir pelo mesmo caminho. Mas, antes de qualquer coisa, tenho que dizer: nunca é o mesmo caminho.

Sei que parece óbvio, mas preciso dizer isso porque a gente tende a se comparar com outras pessoas (especialmente no mundo das redes sociais) sem considerar o ponto de partida delas, o contexto em que vivem, as condições que têm. Faço isso também, é óbvio, e, na minha primeira graduação, essa comparação causou algumas crises que me faziam pensar: “o que estou fazendo aqui?”, alimentando uma baixa autoestima, inclusive, intelectual. Não quero que ninguém que leia essa publicação se sinta dessa forma. Faça o que você pode, com as condições que você tem e sem se subestimar, tá bom?

Então, vamos lá. Para falar como tem sido, resolvi dividir em dois aspectos: o curso em si, o que tenho achado interessante e tudo mais; e a parte institucional e prática. Vou começar por aí.

Sobre a parte institucional/prática

Já que falei sobre contexto, vou contar o meu. Tenho 34 anos. Essa é minha segunda graduação depois de já ter feito, inclusive, um mestrado. Não tenho filhos, vivo com meu esposo. Trabalho 8 horas por dia (às vezes mais) e estudo à noite. Tenho uma família que me apoia e entende quando preciso ficar o final de semana inteiro estudando, por exemplo. Mas tenho todas as responsabilidades que a maioria das pessoas da minha faixa etária tem: limpar a casa, fazer minha própria comida, cuidar do meu cachorro, trabalhar etc. Tudo isso impacta diretamente na minha vida de estudante.

O que percebi desde o primeiro semestre é: a universidade não é feita para quem trabalha. Quando falo “universidade”, estou generalizando, mas vou ser ousada aqui e dizer que, especialmente a universidade pública, não é feita para quem trabalha, o que é muito triste e, de certo modo, contraditório, já que nem sempre há suporte suficiente para a permanência do aluno, o que o obriga a trabalhar. Mas não quero me aprofundar nesse debate, talvez outro dia.

Eu não tinha muita dimensão disso quando fiz Ciências Sociais, porque estava em outro contexto da vida. Trabalhei também, mas de maneira esporádica e nunca em um “regime CLT” de trabalho. Me lembro que essa era uma discussão frequentemente levada pelos estudantes que trabalhavam, mas não posso dizer que tinha a noção de como era, porque não era minha realidade.

O que quero dizer é que a carga horária, a carga de leitura e as exigências não são compatíveis com o ritmo de vida de uma pessoa que trabalha 8 horas por dia. Estou falando que a universidade tem que “pegar leve”? Não. Estou dizendo que, já que se fala tanto em inclusão, deveria haver um modo justo de incluir estudantes trabalhadores.

Vou dar apenas um exemplo, para não me estender: na USP, onde estudo, quem decide fazer a licenciatura precisa cumprir X número de horas de estágio, além de atividades extracurriculares, e além das matérias que deve cursar (com todas suas cargas e cobranças específicas). Como essa pessoa vai fazer tudo isso, considerando que vai passar, no mínimo, 6 horas por dia trabalhando (se for estagiário), ou até 8, 9 horas? Não se sabe. Ela que se vire. Por falar em atividades extracurriculares, a maioria das que acontecem dentro da universidade, como palestras, minicursos etc., são em horários bem complicados para pessoas desse perfil, como às 11h, 14h, ou seja, momentos em que elas estão trabalhando.

Agora, sou uma pessoa com certa vantagem, porque, como falei, não é minha primeira graduação. Isso me permite ter um ritmo de estudos diferente, pois consigo filtrar muita coisa e tenho facilidade para fazer trabalhos e estudar para provas, já que, entre outras coisas, na universidade a gente aprende como estudar e eu já passei por isso. Além disso, no momento, tenho flexibilidade de horário no meu trabalho. Se para mim é difícil, imagine para quem está correndo para se formar e conseguir um emprego melhor para sustentar a família, ou começar uma carreira na área que gosta, ou, sei lá, simplesmente conseguir estudar sem parecer que está se matando? Imagine quem, além de trabalhar e estudar, tem filhos ou outra pessoa da família para cuidar?

Meu sentimento, principalmente depois dessa pandemia, é que a universidade não se importa com nada disso (o contexto da pandemia daria outra discussão, mas deixo para outro momento). Vejam bem, não estou falando de nenhum professor específico ou de alguma matéria mais complicada. Estou falando da estrutura. Tive esse sentimento quando entrei em Ciências Sociais em 2008 e continuo tendo agora: a universidade pública é e segue sendo elitista. Exclui trabalhadores, exclui mães, exclui pessoas que moram nas periferias.

Sei que me estendi nesse assunto, mas, basicamente, é o que tenho a dizer sobre esse aspecto. Minha experiência estudando Letras na USP tem sido difícil do ponto de vista de conseguir dar conta de tudo, porque estudar não é a única coisa que faço da vida! Inclusive, antes de ir assistir a aula à noite, já trabalhei o dia inteiro e precisei me deslocar num transporte público precário para chegar na universidade.

Minha rotina de estudos se resume a assistir as aulas durante a semana e, nos fins de semana e feriados, ler os textos (o que for possível, não consigo ler tudo) e fazer os trabalhos. Sei que não aproveito nem 50% do que poderia aproveitar em uma universidade como a USP, mas estou em paz com isso justamente porque meus objetivos são outros e já vivi muito da vida universitária no passado. Mas gostaria de aproveitar mais? Com certeza. Gostaria de não demorar tanto tempo para me formar? Gostaria muito. Falei no post passado que já se passaram quatro anos e estou longe de acabar um curso que, supostamente, é de cinco anos. Mas não tenho tempo para conseguir cumprir todos os créditos exigidos nesse período. Então vou terminar quando terminar.

Tenho certeza que muitas pessoas que entraram no mesmo ano que eu estão tendo experiências muito melhores nesse aspecto, seja porque são muito mais jovens, têm menos responsabilidades e o cansaço não bate tão forte, seja porque conseguem apenas se dedicar a estudar, ou por qualquer outra razão. Também tenho certeza que muitos colegas estão em situações mais complicadas que a minha, por morar mais longe, por ser cuidador(a) de alguém, por não ter dinheiro para se manter. Por isso falei lá no início que não dá para fazer comparações. Estou contando como tem sido para mim e é possível que muita gente se identifique, mas muita gente não deve nem ter que lidar com essas questões.

Para quem se identifica, eu digo: força! Sei que é difícil trabalhar e estudar, sei que não dá pra ler tudo, sei que dá vontade de desistir. Mas é temporário. De pouquinho em pouquinho, você vai terminar e espero que esse curso te proporcione condições melhores de vida. Se for possível e você estiver muito cansada, tranque um semestre (fiz isso no primeiro semestre deste ano, tranquei tudo e isso me ajudou muito), ou pegue menos matérias. Não se compare com ninguém, muito menos com quem não está nas mesmas condições que você.

Mas, para não falar só de coisa difícil, vou falar rapidamente do segundo aspecto, que é como está sendo estudar tudo o que estou estudando em Letras, ou seja, o conteúdo em si.

Sobre o conteúdo

Aqui entra um contraste grande com tudo o que falei até agora. Se do ponto de vista institucional, burocrático, estrutural, tem sido difícil, do ponto de vista do conteúdo tem sido um sonho! Não dá para falar de todos os cursos de Letras, obviamente, falo da experiência que tenho na USP. Até agora não tenho absolutamente nada de ruim para falar nesse sentido. É verdade que tem umas matérias mais chatinhas, alguns professores mais complicados de lidar, mas minha impressão até agora é a de um curso muito estruturado e completo, mesmo sendo impossível aprofundar tanto por causa da limitação de tempo.

O curso de Letras da USP é dividido assim: existe um ciclo básico, que todos os estudantes devem cursar. São matérias introdutórias de Literatura, Linguística e Estudos Clássicos. Esse ciclo básico dura um ano e, a partir do segundo ano, você começa a cursar sua habilitação de escolha, que pode ser em Linguística ou nas línguas oferecidas, que não me lembro agora quantas são. Ou seja, ao terminar o curso, você pode sair habilitado apenas para o português ou pode sair com dupla habilitação: português + sua escolha. Tem gente que declina do português e sai só com a habilitação em inglês, por exemplo, ou japonês, sei lá. Mas dos relatos que vi de pessoas que fizeram isso, todas se arrependeram, porque o campo de trabalho mais imediato – a docência – é muito maior para formados em português. Do meu ponto de vista, não tem sentido fazer um curso de Letras no Brasil e não estudar português, sinceramente. Mas aí é só minha opinião, cada um com suas escolhas.

Estou fazendo dupla habilitação: português e espanhol. Isso significa que tenho matérias obrigatórias tanto de língua quanto de literatura nas duas habilitações. Também posso (e devo, na verdade) fazer optativas e eletivas tanto nessas áreas quanto em outras. Minha empolgação com isso simplesmente não tem fim! Por mais cansativo que seja, acho maravilhoso, depois de um dia puxado, conseguir sentar e estudar literatura, por exemplo. No momento é uma obrigação, mas, para mim, também é quase como um passatempo. A única coisa que lamento é não ter tempo para ler tudo, não consigo. Mas tenho guardado os programas de todas as matérias para revisitar essas leituras futuramente.

As matérias que mais tenho gostado, obviamente, são as de literatura. Quem frequenta meu blog já sabe o quanto amo ler e aprofundar os estudos só me deixa muito feliz. Não seria um caminho que eu escolheria seguir, se continuasse na vida acadêmica como pesquisadora, mas como estudante acho o máximo! Mas também gostei muito das matérias de língua do espanhol (já finalizei essa parte). Tive um professor muito bom e aprendi bastante. Uma coisa é saber falar espanhol por causa da prática e da vivência, outra coisa é estudar o idioma academicamente, inclusive, para ensiná-lo.

Por causa da falta de tempo, me foquei em fazer as matérias obrigatórias primeiro e só fiz uma optativa, que foi de introdução aos estudos da tradução. Também gostei muito! A partir de agora tenho que cumprir minha carga horária de optativas e eletivas, então é o que vou fazer. Já estou empolgada para este semestre (que começa na próxima segunda!) porque vou fazer uma matéria sobre literaturas africanas de língua portuguesa e outra sobre políticas linguísticas na América Latina. Tem como não se empolgar com isso? Impossível.

Quero dizer, para quem gosta desse universo, é impossível. E é por isso que, apesar do cansaço, da correria e do desânimo que sempre batem (especialmente nos finais de semestre), eu continuo. Também porque, como falei no post anterior, sei que tudo isso vai me ajudar nos meus (novos, mas não muito) caminhos profissionais.

Também contei no post anterior que, quando comecei Letras, em 2019, minha intenção era seguir na carreira acadêmica fazendo um doutorado, possivelmente em Antropologia, mas não descartava a possibilidade de migrar para Letras. Nesse meio do caminho desisti completamente disso. Foi um processo lento e doloroso e acho que vou falar sobre isso no próximo post, para fechar esse pequeno ciclo de publicações sobre a universidade.

Atualmente tenho pensado muito em voltar a ser professora. Uma coisa que não contei para vocês é que, quando comecei Letras, eu não tinha a menor intenção de fazer a licenciatura. Inclusive, quando fui prestar vestibular, estava de olho nas universidades que me possibilitassem fazer só o bacharelado (algumas têm a licenciatura obrigatória). Tive uma experiência ruim quando fui professora de Sociologia, acho que, em grande parte, pelo próprio contexto pessoal que estava enfrentando na época (eu não estava bem, foi justo no final do mestrado, já falei disso aqui). Além dos problemas para resolver, eu não queria estar ali e não tinha isso como objetivo de vida. Tudo isso, somado à dificuldade que é ser professor neste país, me fez desistir.

Nesses quatro anos em Letras algo ligado à educação tem me causado empolgação. Não tenho a menor vontade de ensinar Sociologia, mas amo dar aulas de português! Atualmente dou aula para estrangeiros, o que acho ainda mais legal! Meu professor de espanhol, que comentei, também me fazer pensar muito no ensino do espanhol, uma língua tão importante na integração que acredito que deveria existir entre o Brasil e nossos vizinhos. É o caminho que vou seguir? Ainda não sei. Tudo muda e, ao mesmo tempo, a gente acaba voltando aos mesmos lugares. Só que a gente volta diferente.

São cenas dos próximos capítulos, que conto para vocês no final dessa trilogia, no capítulo “As Letras e eu – o fim”, ou “As Letras e eu – o novo começo” (rs). Mas isso só vai acontecer quando eu terminar o curso, então vai demorar um pouco.

Obrigada aos que tiveram paciência de ler até o final!

Até mais ler!


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