Minha tia Fisica

As primeiras lembranças que tenho da tia Fisica são as de férias de fim do ano. Morávamos em Minas e quase todos os anos, na época de Natal, minhas tias que moravam em São Paulo iam para lá. Também era a época que meu pai ficava muito tempo com a gente, por causa do recesso, então a casa ficava cheia de gente, comida e conversas.

A tia Fisica sempre levava algum presente. Talvez ela achasse que era só uma “lembrancinha”, mas mesmo sem conseguir elaborar desta forma quando criança, eu achava esse gesto de uma delicadeza enorme. Interessante que, quase sempre, os presentes eram coisas como cadernos, canetinhas, papel de carta… Me lembro com muita nitidez de uma lapiseira que tinha uns detalhes em verde e uma ponteira de ursinho. Ela durou bastante tempo!

Outra lembrança marcante que tenho da tia Fisica é do seu amor pela leitura. Ela lia bastante, sabia muitos poemas de cor e sempre comentava sobre algum livro que tinha lido ou estava lendo. Também era ótima contadora de histórias e compartilhava suas memórias de infância se divertindo e emocionada, ao mesmo tempo. Posso dizer com segurança que seu exemplo e incentivo ajudaram a traçar minha identidade de leitora.

Por falar em incentivo, uma lembrança importante que tenho é de sua ajuda em relação aos estudos (meus e da minha irmã). Na época que fiz cursinho e, depois, na faculdade, essa ajuda foi fundamental. Ela enviava dinheiro para as passagens de ônibus ou para comprar algum livro. Não é que tinha dinheiro sobrando, mas, mesmo assim, nos ajudava. Ela foi professora e, depois, trabalhou no ambiente escolar por muitos anos, portanto, sabia que o estudo poderia transformar a vida de alguém, como, de fato, transformou a nossa.

Uma das últimas lembranças que tenho de conversas com minha tia lúcida é ela me falando sobre ter filhos. Depois de um almoço na casa dela, já na despedida, ela me disse algo do tipo: “se você não quer ter filhos, não tenha, é melhor assim. Filho é uma coisa muito séria e é uma obrigação, mas dá muito trabalho, então é para quem quer”. Eu nem deveria ter me surpreendido com esse comentário, mas me surpreendi porque pessoas muito mais jovens e de outros contextos de vida já tentaram me convencer de que ter filhos é a melhor coisa que posso fazer da vida. Mas não a minha tia Fisica. Ela era sábia.

Ela se foi em um dia ensolarado, de céu azul, o primeiro dia quente depois de vários dias frios e nublados em São Paulo. Ela se foi depois de dias nublados em sua vida também, por causa da saúde. Um dia tão lindo se tornou triste, mas, ao mesmo tempo, fortaleceu no coração de quem ficou a esperança que ela tinha e sobre a qual falava com um brilho nos olhos: a de um dia se encontrar com Jesus, a quem ela amava e seguia com tanta fé. A lembrança que tenho neste exato momento é dela sorrindo e cantando e acho que é assim que ela deve estar agora.

Penso nas mulheres da minha família e só encontro histórias fortes, em alguns casos, de sobrevivência mesmo. Mulheres que viverem muitas coisas difíceis e, mesmo assim, fizeram o que puderam por quem puderam. Entre tantas mulheres extraordinárias na minha vida, a tia Fisica é uma delas e, por isso, quis deixar registrada esta pequena homenagem.

Seu nome era Zulmira e muitos a chamavam assim, mas, para mim, ela sempre será minha tia Fisica.


2 comentários sobre “Minha tia Fisica

  1. Meu Deus…Saroca querida…que coisa mais linda…estou aqui chorando, emocionada com suas palavras e ao mesmo tempo a saudade apertando…quantas verdades sobre minha mãezinha querida…e há muitas outras que guardo com tanto carinho no meu coração!!! Você a descreveu perfeitamente e sou muita grata por isso minha prima…obrigada!

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