Compartilhando análises – 02: Compaixão, Piedade e Rejeição: uma análise do livro Compaixão

Oi, pessoas!

Como prometi, venho com a última parte da overdose de Toni Morrison. O livro Amada foi o último do desafio literário de 2018 (que acabei de compartilhar somente agora). Contei para vocês que, logo em seguida, li também Compaixão, outro livro da autora, para uma matéria da faculdade. Meu trabalho de fim de semestre foi sobre esse livro e, como também já comentei aqui, de vez em quando vou publicar alguns trabalhos das matérias de literatura que estou cursando, porque acho que pode interessar, inpirar ou ser útil para algumas pessoas.

Como expliquei no primeiro post dessa série, trata-se de um trabalho acadêmico, mas não é um artigo, ensaio, parte de dissertação ou tese. É um simples trabalho de conclusão de uma matéria no semestre e é assim que deve ser lido e entendido. Significa que ele não deve ser usado como trabalho de referência. Se você vai fazer algum trabalho sobre esse tema, procure as referências de análise e crítica literária. Mas acredito, sim, que meu modesto trabalho pode servir de inspiração e, por isso, compartilho aqui.

Particularmente, gostei muito de fazer esse trabalho porque o professor que deu a matéria é entusiasta de uma outra forma de escrita acadêmica. Na academia temos alguns padrões a seguir e o que ele propôs foi um exercício de sair desses padrões, de escrever mais livremente, entendendo que escrever sobre literatura é exercer uma escrita também criativa e subjetiva (para mim, qualquer escrita é assim, mas conversamos sobre isso em outro momento). Confesso que foi um pouco difícil e que não consegui sair muito da caixinha, mas estava relendo o trabalho – que foi feito em 2019 – para publicar aqui e até que gostei bastante. Espero que vocês gostem e, principalmente, decidam ler Compaixão depois disso, quem sabe com o olhar que apresento aqui.

Ah! Uma coisa que não comentei na primeira publicação, mas acho importante dizer: só vou compartilhar esses trabalhos após terem sido corrigidos e eu tiver obtido uma nota boa (haha). Não é só por uma questão de ego, viu? Mas acho que é mais responsável fazer isso, porque apesar de ser “só” um trabalho de final de semestre, não deixa de ser uma análise teórica e não apenas minhas impressões de leitora.

Lembrando que: plágio é crime! Espero que este trabalho sirva de inspiração, mas não vale copiar, né? Se precisarem citar, usem a referência que coloquei no final do texto.

Um último comentário: quando precisei ler Compaixão, ele estava esgotado. Acabei conseguindo só no formato de e-book e consegui ler com tranquilidade. A editora é a Companhia das Letras e no site diz que está esgotado mesmo, então, se você tiver interesse em ler, talvez só consiga em algum sebo ou o formato ditigal por enquanto. Vamos torcer para que em breve voltem com uma nova edição.

Agora sim, fiquem com a análise.


Compaixão, Piedade e Rejeição: uma análise do livro Compaixão

É preciso respirar fundo,

um longo respiro antes de começar a leitura de Compaixão, livro escrito por Toni Morrison. A sinopse nos informa que se trata da história de Florens, uma menina que foi entregue pela mãe, como parte do pagamento de uma dívida do dono da fazenda em que ambas eram escravizadas. O contexto são os Estados Unidos do final do século XVII – um cenário de escravidão, guerras e exploração. Com essas informações, o leitor já está avisado: não encontrará  uma história feliz.

Roland Barthes explica sobre ler levantando a cabeça. É a leitura em que fazemos pausas e tiramos os olhos do papel, porque o que lemos nos proporciona um “afluxo de ideias, excitações, associações” (BARTHES, 2004, p.26). No caso de Compaixão, além de levantar a cabeça, é preciso tomar fôlego não apenas antes de começar, mas também em vários momentos durante a leitura. Ao discutir o papel do leitor, Barthes também afirma que

ler é fazer o nosso corpo trabalhar (sabe-se desde a psicanálise que o corpo excede em muito nossa memória e nossa consciência) ao apelo dos signos do texto, de todas as linguagens que o atravessam e que formam como que a profundeza achamalotada das frases (idem, p. 29).

E que

na leitura, todas as emoções do corpo estão presentes, misturadas, enroladas: a fascinação, a vagância, a dor, a volúpia; a leitura produz um corpo transtornado, mas não despedaçado […] (idem, p.38).

Portanto, a necessidade de ar, a fisgada no estômago, os olhos que às vezes se enchem de lágrimas também fazem parte do processo de leitura. Mas todas as sensações e sentimentos se contradizem. Pode ser, ao mesmo tempo, doloroso e prazeroso acompanhar a história. É Barthes também quem fala sobre o Desejo na leitura. O autor cita três tipos de desejos ou prazeres: uma relação fetichista com os arranjos de palavras; o prazer que vem pelo suspense de toda a narração; e o desejo de escrever, ou o desejo do desejo que o autor teve ao escrever (BARTHES, 2004).

Compaixão despertou em mim pelo menos os dois últimos. Conhecer a Florens e aos outros personagens fez com que logo surgissem algumas perguntas: mas como termina essa história, se é que termina? A carta que Florens escreve chega ao destinatário? Existe alguma mínima possibilidade de que ela entenda sua mãe e a perdoe? Ao terminar a leitura, com mais perguntas que respostas, foi necessário escrever. Não apenas para entregar este trabalho de fim de curso, mas para organizar os pensamentos. Na escrita foi necessário respirar fundo mais uma vez, pois a escrita é outra leitura. Por isso, a necessidade de ar, a fisgada no estômago e as lágrimas nos olhos também estão presentes neste trabalho.

O começo pelo final

Compaixão é um livro com três narradores diferentes. Nesse revezamento de narrações, conhecemos o ponto de vista de cada um dos personagens. Por onde começar, então? Ou como terminar? Passado e presente se misturam em várias vozes.

Jonathan Culler, ao discutir a questão da narrativa, afirma que

a teoria da narrativa postula a existência de um nível de estrutura – o que geralmente chamamos de “enredo” – independentemente de qualquer linguagem específica ou meio representacional (CULLER, 1999, p. 86)

Segundo o autor, existem dois modos de pensar o enredo:

De um ângulo, o enredo é um modo de dar forma aos acontecimentos para transformá-los numa história genuína: os escritores e leitores configuram os acontecimentos num enredo, em suas tentativas de buscar o sentido das coisas. De um outro ângulo, o enredo é o que é configurado pelas narrativas, já que apresentam a mesma “história” de maneiras diferentes (idem).

A partir das definições de Culler, podemos identificar que, em Compaixão, o enredo é a saída de Florens da fazenda, por oferecimento de sua mãe, e as consequências posteriores. Esse enredo se dá por três discursos diferentes: de Florens, que narra por meio de uma carta escrita ao homem por quem se apaixonou;  de sua mãe, que surge ao final do livro, em uma espécie de epílogo; e de Jacob, que aceita a menina como pagamento da dívida. Esse último discurso se dá por meio de um narrador onisciente que conta também as histórias dos outros personagens

Ainda sobre os pontos de vista, também é necessário levar em conta o que diz Norman Friedman sobre o problema do narrador: a transmissão apropriada de sua história. Segundo o autor, algumas questões precisam ser levantadas quanto a isso:

1) Quem fala ao leitor? (autor na primeira ou terceira pessoa, personagem na primeira ou extensivamente ninguém?); 2) De que posição (ângulo) em relação à estória ele a conta? (de cima, da periferia, do centro, frontalmente ou alternando?); 3) Que canais de informação o narrador usa para transmitir a estória ao leitor? (palavras, pensamentos, percepções e sentimentos do autor; ou palavras e ações do personagem; ou pensamentos, percepções e sentimentos do personagem: através de qual – ou de qual combinação – destas três possibilidades as informações sobre estados mentias, cenário, situação e personagem vêm?); e 4) A que distância ele coloca o leitor da estória? (próximo, distante ou alternado?) (FRIEDMAN, 2002, p. 171-172).

Como foi dito, encontramos mais de um narrador em Compaixão. Considerando as questões apresentadas acima sobre a narrativa e que existem diferenças de sentido dependendo de quem narra, a intenção deste trabalho é comparar os três discursos e os argumentos e acontecimentos relacionados a eles.

A decisão foi a de começar pelo final do livro, que narra o início da história – o momento em que a mãe entrega sua filha como pagamento de uma dívida que não era sua.  No processo de leitura o final também teve grande importância. Após terminar, voltei ao início, na tentativa de entender o que, a princípio, havia ficado confuso, mesmo que no decorrer do livro algumas coisas tenham se desvendado. Começar pelo fim foi a maneira encontrada para organizar meus pensamentos como leitora, então, ao escrever, este é o mesmo caminho.

Respiro profundo

A mãe

[…] Você ficou lá com aquele sapato, o homem alto riu e disse que levava eu para pagar a dívida. Eu sabia que o Senhor não ia deixar. Eu disse você. Levasse você, minha filha. Porque eu vi que o homem alto via você como uma criança humana, não como moeda. Ajoelhei na frente dele. À espera de um milagre. Ele disse sim.

Não foi milagre. Bendito seja Deus. Foi uma compaixão. Oferecida por um homem. Eu fiquei de joelhos. No pó onde meu coração vai continuar toda noite e todo dia até você entender o que eu sei e quero dizer para você: ganhar o domínio sobre outra pessoa é uma coisa dura; impor domínio sobre outra pessoa é errado, dar o domínio de si mesma para outro é uma coisa má. Ah Florens. Meu amor, escute a sua mãe (MORRISON, 2009, p.156).

O último capítulo do livro é direcionado a Florens. Uma explicação, dada pela mãe, do motivo pelo qual ofereceu sua filha como o pagamento da dívida. Justificativa que a filha nunca ouvirá, mas que parece haver a necessidade de ser dita. A entrega da filha surgiu como uma alternativa à realidade que teria se permanecesse na fazenda, como mulher escravizada.

A citação acima relata o momento de oferta e aceite, entendido como um ato de compaixão. Porém, esse é o final de sua explicação. Antes disso, a mãe conta todos os horrores da escravidão que ela própria sofreu. “Não existe proteção”, ela repete por quatro vezes, enquanto conta seu sequestro do país de origem, o quanto desejou morrer no trajeto de barco até Barbados, os estupros que sofreu na fazenda, por ser considerada apenas uma reprodutora de mais pessoas que seriam propriedade, os abusos por parte do Senhor, que começava a colocar os olhos em Florens.

Não existe proteção. Ser mulher neste lugar é ser uma ferida que nunca fecha. Mesmo que forme cicatriz, o abscesso continua sempre por baixo (MORRISON, 2009, p.153).

Por que uma mãe entregaria sua filha? A justificativa da mãe de Florens é o amor. Ela não poderia permitir que sua filha vivesse os mesmos horrores que ela. Nesse sentido, Compaixão de aproxima de Amada, outra obra de Toni Morrison. Em Amada, Sethe mata sua filha ainda bebê – e tenta matar os outros três filhos – em um ato de desespero, para não permitir que fossem levados para a fazenda de onde ela conseguiu fugir. O horror da escravidão era muito maior que o horror da morte. O amor é um argumento repetido diversas vezes por Sethe, quando, finalmente, consegue falar sobre o que aconteceu.

A questão da maternidade, tão presente em Amada, também aparece como um tema importante em Compaixão. A maternidade perpassa o livro de muitas maneiras. Além da relação entre Florens e sua mãe, aparece na personagem Rebekka, esposa de Jacob, que teve vários filhos, porém nenhum sobreviveu. Aparece também em Sorrow, mulher negra que trabalha na casa de Jacob. Ela muda seu nome para Complete quando dá à luz a sua segunda filha, que cuida com afinco, após a experiência de ver nascer morta a primeira criança. Aparece ainda em Lina, mulher indígena escravizada, que não tem filhos próprios, mas cuidou de Florens como se fosse sua mãe desde o primeiro dia que ela chegou na casa.

Todas essas relações maternais são relatadas como marcadores de mudanças profundas nessas mulheres, seja pela vida, pela morte ou pela perda. O que parece sustentar o argumento da mãe de Florens – qual dessas mães não faria o mesmo? Retomando a relação com Amada, encontramos nesse livro, na fala da personagem Baby Suggs, o quão complicado era para uma mulher na condição de escrava amar a um filho:

Para uma mulher que era escrava, amar alguma coisa tanto assim era perigoso, principalmente se era a própria filha que ela havia resolvido amar. A melhor coisa, ela sabia, era amar só um pouquinho; tudo, só um pouquinho, de forma que quando se rompesse, ou fosse jogado no saco, bem, talvez sobrasse um pouquinho para a próxima vez (MORRISON, 2007, posição 866 [Kindle]).

Mas a mãe de Florens a ama o suficiente para aceitar o fato de que nunca mais irá encontrá-la, desde que exista a possibilidade, ainda que não haja garantias, de que Florens não tenha que passar por tudo o que ela própria passou.  A palavra “compaixão”, título do livro, aparece apenas no final, sob a perspectiva dessa mãe que parece se surpreender com o fato de que esse ato tenha vindo de um homem.

Respiro Profundo

Jacob

Mal escutando a arenga de D’Ortega, furtivo e indireto em vez de direto e viril, Jacob aproximou-se da cozinha e viu uma mulher parada na porta com duas crianças. Uma montada no quadril; uma escondida atrás das saias. Ela parecia bastante saudável, mais bem alimentada que os outros. Num repente, mais para silenciá-lo e quase certo de que D’Ortega ia recusar, ele disse: “Ela. Essa aí. Levo essa”. […]

Ele nem tentou silenciar a risada ao passar diante da cozinha e olhar de novo a mulher parada na porta Bem nesse momento a menininha saiu de trás da mãe. Nos pés tinha um par de sapatos de mulher muito grandes para ela. […] Sua risada não tinha cessado quando a mulher que aninhava o menino pequeno no quadril avançou. Sua voz era pouco mais que um sussurro, mas não havia dúvida quanto à sua urgência. “Por favor, senhor. Eu não. Leve ela. Leve minha filha”.

Jacob desviou o olhar dos pés da criança e olhou para ela, a boca ainda cheia de riso, e foi tocado pelo terror nos olhos dela. Seu riso terminou num rangido, ele sacudiu a cabeça, pensando. Deus me livre se este não é um negócio totalmente infeliz. […]

“Não. Eu disse não”.

De repente a mulher que cheirava a cravos ajoelhou-se e fechou os olhos.

Fizeram novos papeis. Acordaram que a menina valia vinte moedas de prata, considerando o número de anos que tinha pela frente […] (MORRISON, 2009, p. 26-29).

A narrativa do ponto de vista de Jacob não vem dele mesmo, mas de um narrador onisciente, que apresenta um personagem hipócrita e contraditório. Ao mesmo tempo em que diz não gostar de fazer comércio de pessoas, ele compra uma indígena para trabalhar em suas terras (Lina) e aceita, como uma forma de troca, uma jovem negra para trabalhar também (Sorrow). Apesar de sua reticência em aceitar uma pessoa escravizada como pagamento da dívida, ele não reluta muito em aceitar Florens, com a justificativa para si mesmo de que uma criança com a idade próxima à de sua filha morta seria do agrado de sua esposa e, caso acontecesse algo com ela, a perda não seria tão dolorida quanto a de um filho. Um pouco adiante na narrativa, Jacob justifica o negócio dizendo que Florens havia sido rejeitada pela mãe e ele, como órfão, entende que crianças assim precisam de ajuda.

Para Jacob não foi um ato de compaixão, a fim de livrar Florens dos perigos aos quais estaria exposta na fazenda. Para ele, foi um ato de piedade, proveniente da boa imagem que tinha de si mesmo. O narrador ainda expõe sua hipocrisia ao mostrar que, apesar de desdenhar tudo o que viu na fazenda de D’Ortega, inclusive sua casa, o que esse personagem buscava era enriquecimento e construir casas grandes, que, no fim, não seriam usadas por ninguém.

Rebekka, sua esposa, também tem sua história contada por esse narrador onisciente. Para ela, a chegada de Florens a fez sofrer justamente por lembrar de sua filha morta, mostrando que a justificativa de Jacob era apenas para aliviar sua própria consciência. Aos poucos, porém, ela se acostuma e Florens passa a ser mais uma pessoa que a ajuda trabalhar nas terras.

A compaixão, para a mãe e a piedade, para Jacob, tem outro nome para Florens: rejeição.

Respiro Profundo

Florens

Lina diz que o Patrão tem um jeito esperto de receber sem dar. Sei que é verdade porque vejo isso para todo o sempre. Ele olhando, minha mãe escutando, o bebê dela no quadril. O Senhor não vai pagar a quantia toda eu deve para o Patrão. O Patrão dizendo que aceita então a mulher e a menina, não o bebê menino, e a dívida acaba. A minha mãe implora que não. O bebê ainda é de peito. Que leve a menina, ela diz, minha filha, ela diz. Eu. Eu. O Patrão aceita e muda quanto é devido (MORRISON, 2009, p.11).

Florens é a narradora de grande parte do livro. Sua narração é uma carta que escreve ao ferreiro, um homem negro liberto que trabalhou nas terras de Jacob, por quem ela se apaixonou. Essa carta é escrita como se ela precisasse dar algum tipo de explicação a ele. Novamente nos deparamos com a necessidade de falar, ainda que seja algo doloroso ou indizível. Essa necessidade aparece na fala da mãe e também em Amada, livro de Toni Morrison, como se somente a partir da fala fosse possível dar o primeiro passo a diante.

Florens narra sua ida para as terras de Jacob, a relação com Lina; o caminho em busca do ferreiro, a pedido de Rebekka; a parada na casa da viúva, que a faz sentir como um animal; e o retorno, em que volta como uma nova pessoa. Durante todos esses relatos, com frequência menciona sua mãe e o sentimento de mágoa é evidente.

É interessante notar que, no relato de Florens sobre o momento em que foi usada como pagamento de dívida, Jacob faz a oferta para levar a ela e à sua mãe, não ao bebê. Porém, a mãe diz que não, que leve somente a Florens. Isso é algo que não aparece no relato da mãe, nem do narrador que conta a versão de Jacob, o que reforça a ideia de que o sentimento de rejeição é tão grande, que Florens cria outra memória sobre o acontecido. Nessa memória, sua mãe prefere ficar com o bebê a ir com ela.

A rejeição – ou o que ela crê ser uma rejeição – molda sua vida. Florens é descrita em vários momentos como carente de atenção e é por essa necessidade que se apega tanto ao ferreiro. Porém, mais uma vez se sente rejeitada, quando perde o controle de si mesma e é expulsa por ele. Os sentimentos de rejeição se misturam, quando, ao final da carta que escreve para o ferreiro, Florens, na verdade, se dirige à sua mãe.

Está vendo? Você está certo. A minha mãe também. Eu virei fúria mas também sou Florens. Completa. Imperdoada. Imperdoável. Sem piedade, meu amor. Nenhuma. Ouviu? Escrava. Livre. Enfim.

Vou guardar uma tristeza. Que esse tempo inteiro eu não posso saber o que minha mãe está me dizendo. Nem ela pode saber o que eu estou querendo dizer para ela, Mãe, você pode ter prazer agora porque as solas dos meus pés estão duras feito madeira de cipreste (MORRISON, 2009, p. 151).

A tristeza de Florens por não ouvir o que a mãe lhe diz é repetida ao longo do livro. É tristeza da mãe também não saber se a filha ouviu suas últimas palavras a ela. Tristezas que não terão a solução desejada – que se diga e que se ouça – mas que, ao serem revisitadas e pronunciadas para o nada, ou escritas em um papel, talvez ofereçam algum tipo de consolo.

O final pode ser o começo

Tento dar algum tipo de conclusão a esse trabalho, mas não encontro. Lamento que não haja tempo, espaço e, no momento, fôlego para entrar em questões importantes que aparecem em Compaixão. Deixo o final aberto, assim como faz o livro. Não há um final feliz, até porque não há um final. A Florens que retorna da casa do ferreiro ainda é escravizada e a Patroa tenta colocá-la à venda. No entanto, ela também se diz livre. Assim como em Amada, não há uma superação no final e, sim uma continuidade, com possibilidades que estão abertas. As possibilidades também estão abertas para este trabalho, que talvez não se finalize nessas oito páginas, mas, por enquanto, sim.

BIBLIOGRAFIA

BARTHES, Roland. “Escrever a Leitura” e “Da Leitura”. In: O Rumor da Língua. Trad. Mario Laranjeira. São Paulo: Martins Fontes, 2004.

CULLER, Jonathan. “Narrativa”. In: Teoria Literária: uma introdução. Trad. Sandra Guardini Teixeira Vasconcelos. São Paulo: Beca Produções Culturais, 1999.

FRIEDMAN, Norman. “O ponto de vista na ficção: o desenvolvimento de um conceito crítico”. Trad. Fábio Fonseca de Melo. Revista USP. São Paulo, n. 53, p. 166-182, março/maio 2002.

MORRISON, Toni. Amada. Trad. José Rubens Siqueira. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

_____________ . Compaixão. Trad. José Rubens Siqueira. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.


Para citar este texto utilize a referência: Toledo F., Sarah. 2021. “Compartilhando análises – 02: Compaixão, Piedade e Rejeição: uma análise do livro Compaixão” Publicado em sarices.wordpress.com, url: https://sarices.wordpress.com/2021/11/30/analise-do-livro-compaixao/. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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