Amada – Toni Morrison

Oi, pessoas!

Como prometi na publicação anterior, hoje venho falar sobre o livro Amada, da Toni Morrison. Entrei em conflito sobre o que falar aqui. Como contei anteriormente, o livro acabou sendo uma leitura obriagatória que fiz na faculdade, então não apenas o li, como tive aulas sobre ele e sobre questões literárias que o atravessam. A princípio, fiquei com vontade de trazer todo esse debate, mas acabei desistindo porque 1 – o texto ficaria enorme (mais enorme ainda) e 2 – achei que poderia fugir um pouco do propósito do desafio, que é contar minhas impressões sobre os livros para, de algum modo, incentivar vocês a lê-los.

Por outro lado, quero muito compartilhar uma leitura, digamos, mais ampliada sobre essa obra, então vou guardar a ideia aqui como uma publicação para o ano que vem, na tentativa de relacionar, talvez, com livros de outras autoras. Sendo assim, continuamos com a programação normal, que são as impressões que tive com a leitura de Amada. Dessa vez, vou conseguir ser bem fidedigna a elas, porque simplesmente anotei tudo no meu caderno de anotar a vida. Assim de intenso foi esse livro.

Antes disso, talvez valha a pena trazer um breve resumo sobre o enredo: o contexto do livro são os Estados Unidos logo após a abolição da escravidão, especificamente, o ano de 1873. Conta a história de Sethe, uma ex-escravizada e sua filha morta, Amada. De alguma maneira, Amada reaparece na vida dessa mãe que carrega muitos traumas, muita culpa e muita dor. O livro é sobre esse “reencontro”, que coloco entre aspas porque pode ser interpretado de muitas formas, mas a história principal é sobre as chagas da escravidão.

Os comentários que vou trazer aqui talvez sejam muito subjetivos, mas acho que vão passar exatamente o que senti lendo essa história, que é muito triste, mas é, de algum modo, poderosa. Minhas notas estão intercaladas com algumas citações que, infelizmente, não tenho a página para apontar porque fiz a leitura no leitor de e-book e as páginas não são as mesmas da edição impressa. Pode parecer que tem algum spoiler, mas não tem. Toda a história é conhecida do leitor em qualquer sinopse do livro. Os comentários abaixo são apenas minhas impressões após a leitura, vale a pena ler a obra para se aprofundar muito mais.

Começo a ler um livro sabendo que ele fala sobre a escravidão, sobre a violência cruel e inaceitável contra pessoas que foram sequestradas de seus países para serem escravizadas, tratadas como propriedades, como máquinas de trabalho forçado e máquinas de parir novas propriedades. Começo a ler um livro sabendo que ele vai falar sobre a violência contra a mulher escravizada. Especialmente uma mulher que, diante desse cenário de horror, decide matar seus filhos para que não passem por isso. Começo a ler um livro sabendo que a criança morta vai voltar (de alguma maneira). Me pergunto: como começar a ler sem um nó na garganta e um embrulho no estômago? Como não ter vontade de gritar de raiva e chorar de desespero antes mesmo de começar a leitura, pois sei que esse livro existe inspirado em uma história real? Como ler esse livro, que a própria autora diz se tratar de uma história que não é para ser contada?

O começo da leitura foi um pouco complicado, Toni Morrison muda de assunto sem aviso prévio e deixa a gente um pouco perdida. Pensei que seria um processo difícil de leitura por causa disso, mas não foi. Depois a gente entra no ritmo. O jeito de escrever está diretamente ligado à proposta de Morrison de nos inserir na história:

“Queria que o leitor fosse sequestrado, impiedosamente jogado num ambiente estranho como primeiro espaço para uma experiência comum com a população do livro – assim como os personagens eram arrancados de um lugar para outro, de qualquer lugar para outro, sem preparação nem defesa.”

MORRISON, Toni. Amada. Prefácio. Companhia das Letras, 2007.

Seria um livro de “terror”? Não queria que fosse. Sabia que provavelmente não seria, mas a ideia de um bebê morto que retorna (retorna?) pode causar essa expectativa. Não queria me assustar. Não gosto de terror. Mas, nesse caso, foi o Horror. Apesar de ser um livro de ficção, a história por trás dele foi real. O horror não está em um bebê fantasma, está na violência da escravidão que levou uma mãe ao limite de tentar matar seus filhos para protegê-los.

Amor. É um argumento muito repetido no livro, pela mãe Sethe. O amor pelos filhos e o medo de que eles passassem pela violência que ela passou, a levou a fazer o que fez. Mas começou pelas filhas. Amada foi morta com a irmã mais nova (Denver) no colo. Os dois meninos estavam do lado. Por que as meninas primeiro? Mas não consigo julgar Sethe ou ter raiva dela. Guardadas todas as proporções, a compreendo. Num sistema de violência e opressão patriarcal, as meninas são as mais atingidas.

Por outro lado, fico incomodada com Amada. Sinto raiva da sua incompreensão. Mas por que ela deveria compreender alguma coisa? Foi retirada dela a oportunidade de viver (de ser livre?). Ela não tem que compreender, ela tem o direito de se indignar, de reivindicar a vida que não viveu. Mesmo assim, ela me incomoda.

Mas é ou não é Amada? A questão não se resolve para mim. Ao longo do livro alternei entre: “sim, com certeza” e “não, não é”. No final acho que, em alguma medida, era. Outra moça, com uma história de violência, que buscava por sua mãe, encontrou Sethe, que buscava pela filha morta. Buscavam no sentido de tentar, de algum modo, resolver o passado ou explicá-lo, justificá-lo. Nesse sentido, sim, era Amada. Da mesma forma que Sethe era a mãe dessa jovem.

“Lá onde eu estava antes de vir para cá, aquele lugar é de verdade. Não vai sumir nunca. Mesmo que a fazenda inteira – cada árvore, cada haste de grama dela morra. A imagem ainda está lá e mais se você for lá – você que nunca esteve lá – se você for lá e ficar no lugar onde era, vai acontecer tudo de novo; vai estar ali para você, esperando você. Então, Denver, você não pode ir lá nunca. Nunca. Porque mesmo agora que está tudo acabado – acabado e encerrado -, vai estar sempre lá esperando você. Foi por isso que eu tive de tirar todos os meus filhos de lá. De qualquer jeito.

Denver mordeu as unhas. “Se ainda está lá esperando, quer dizer que nada nunca morre”.

Sethe olhou bem para o rosto de Denver: “Nada nunca morre”, disse ela.

MORRISON, Toni. Amada. Companhia das Letras, 2007.

Nada nunca morre. Nada pode ser esquecido. Porém, ao mesmo tempo, é difícil lembrar. É difícil falar sobre o que se lembra. Em certo momento do livro, Sethe lamenta que sua mente aceita tudo o que vem, todas as imagens. Mas ela não consegue falar sobre isso com ninguém, a não ser com Paul D. E só a Sethe Paul D. consegue contar sobre os horrores que viu e viveu. Essa relação indica que, se existe alguma possibilidade de superação, ela só pode ser coletiva. Não será individual.

O silêncio é significativo também em Denver. Ela não consegue lidar com o que ouviu de sua mãe quando criança. Então não fala mais nada, fica muda por um tempo. É difícil demais falar sobre a verade violenta que sofreu. Mas o silêncio consome, então Sethe começa a falar. Falar é difícil e doloroso, mas parece ser necessário.

Sobre a maternidade, aparece no livro de muitas maneiras. O que significava para uma mulher negra e escravizada ser mãe? Ela nem podia ser mãe, na verdade, porque seus filhos eram tomados como propriedades do senhor de terras. Sethe também lembra de sua própria mãe, que mal chegou a conhecer. Então ela decidiu que seria uma mãe, ela lutou para tentar ser uma mãe em um lugar onde seus filhos eram objetos de venda e troca. Mesmo o infanticídio foi a forma que Sethe encontrou de ser mãe.

“Para uma mulher que era escrava, amar alguma coisa tanto assim era perigoso, principalmente se era a própria filha que ela havia resolvido amar. A melhor coisa, ela sabia, era amar só um pouquinho; tudo, só um porquinho, de forma que quando se rompesse, ou fosse jogado no saco, bem, talvez sobrasse um pouquinho para a próxima vez.”

MORRISON, Toni. Amada. . Companhia das Letras, 2007.

Como lidar com o passado? E quando ele tem o peso de ser relacionado à sociedade, não a um indivíduo? O fantasma de Amada. O fantasma da escravidão. O preço a ser pago. É uma história que não pode ser contada?

É uma história que não deveria ter acontecido.


Pessoas queridas, com essa publicação termino os livros do meu desafio literário de 2018: 12 livros escritor por mulheres negras. Espero muito que vocês se inspirem a ler algum deles, ou, quem sabe, todos.

Para ver a lista completa, acesse AQUI.

Na próxima publicação, como também prometi, vou compartilhar o trabalho que escrevi sobre outro livro da Toni Morrison, Compaixão. Espero vocês.

Até mais ler!


Um comentário sobre “Amada – Toni Morrison

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