O sentimento do nunca mais

Oi, pessoas!

Já comentei com vocês que estou revisando os textos aqui do blog, né? O processo está lento, mas interessante. Cheguei em uma parte que é cheia de citações. Comecei a compartilhar trechos de livros que escrevo no meu caderno de anotar a vida e depois parei, não sei por quê. O caso é que talvez eu volte a compartilhar alguns trechos de vez em quando. Resolvi fazer isso hoje.

Recentemente li o livro Notas sobre luto, da Chimamanda Ngozi Adichie e fiquei com vontade de falar sobre ele. Ao mesmo tempo, não tenho o que falar. Acho que a leitura me trouxe alguns sentimentos sobre meus próprios lutos, certa identificação, talvez.

Nesse livro, a autora compartilha seus pensamentos e sentimentos sobre a morte de seu pai, uma morte repentina e inesperada. É um livrinho pequeno, mas intenso demais. Não esperem um ensaio sobre o processo de luto. O livro é formado exatamente pelo que diz o título: notas. São pensamentos soltos, memórias, questionamentos, saudade, tristeza, às vezes certo consolo. São pensamentos como este:

“Minha raiva me assusta, meu medo me assuta, e em algum lugar há também vergonha: por que estou sentindo tanta raiva e tanto medo? Tenho medo do amanhã e de todos os amanhã que virão depois. Sinto-me tomada por um estarrecimento incrédulo com o carteiro que continua passando, com as pessoas que continuam me convidando para dar palestras não sei onde, e com os alertas de notícias que surgem regularmente na tela do meu celular. Como é possível o mundo seguir adiante, inspirar e expirar de modo idêntico, enquanto dentro da minha alma tudo se desintegrou de forma permanente?”

Adichie, Chimamanda Ngozi. Notas sobre o luto. Companhia das Letras, 2021. p. 22

Na semana passada, o falecimento do meu pai completou quatro anos. Parece que foi ontem e parece que faz muito mais tempo. Esse sentimento que a Chimamanda relata, também senti quando tudo aconteceu. Foi como se todas as coisas do mundo perdessem a importância. O que poderia ser mais importante que a vida em geral e, particularmente, a vida dele naquele momento? Por que tudo e todos insistiam em seguir como se nada tivesse acontecido?

Algum tempo depois, também escrevi algumas notas sobre meu luto e até compartilhei aqui no blog. Acho que o que escrevi naquela época se relaciona mais com este outro trecho do livro da Chimamanda:

“Aconteceu, então vamos celebrar a vida que ele teve”, escreveu uma velha amiga, e aquilo me deixou enfurecida. Que fácil fazer um sermão sobre o caráter definitivo da morte quando na verdade é justamente o caráter definitivo da morte que é a fonte de toda aflição. Eu hoje me envergonho das palavras que já disse a amigos enlutados. “Encontre paz nas suas lembranças”, eu costumava dizer. Ter um amor arrancado, sobretudo quando isso é inesperado, e depois ouvir que se deve recorrer às lembranças. Em vez de virem me acudir, minhas lembranças trazem eloquentes pontadas de dor que dizem: ‘É isso que você nunca mais vai ter’.”

Adichie, Chimamanda Ngozi. Notas sobre o luto. Companhia das Letras, 2021. p. 38.

Essa falta de consolo me acompanhou durante muito tempo. Acredito que já não estou nessa fase, mas, depois de quatro anos, a verdade é que ainda estou no processo de luto. Talvez em outro momento volto aqui para falar mais sobre isso, sei que pode ajudar outras pessoas. Tenho trabalhado esse tema na terapia e ainda é um processo muito íntimo e individual.

Por outro lado, com a pandemia, o luto também passou a ser um pouco coletivo. Pelo menos para quem se importa com todas as vidas que foram perdidas até agora. Sei que neste momento deve ter muita gente vivendo exatamente essa dor, tristeza, revolta e solidão. Cada pessoa passa pelo luto de maneira diferente. A única certeza é que vamos passar por isso em algum momento, mas como será, quanto tempo vai durar, como elaborar, tudo isso é diferente para cada um.

No meu caso, me ajuda um pouco ler e escutar outras pessoas falando sobre seus processos. Por isso recorri ao C. S. Lewis lá atrás, à Chimamanda agora. Apesar de o processo ser diferente para cada um, só quem já passou por uma perda tão grande e dolorosa consegue entender, minimamente, sentimentos como os expressados nas citações acima. No fundo, existe uma identificação, que talvez seja esse sentimento do definitivo, do “nunca mais”.

“”Nunca mais” veio para ficar. “Nunca mais” parece muito injusto e punitivo. Eu vou passar o resto da vida com as mãos estendidas tentando alcançar coisas que não estão mais ali.”

Adichie, Chimamanda Ngozi. Notas sobre o luto. Companhia das Letras, 2021. p. 68.

Gostaria de terminar essa publicação de maneira menos melancólica e talvez dizendo que tudo vai ficar bem. Mas, por minha própria experiência, não posso dizer isso ainda. Os sentimentos se transformam, a gente se adapta à ausência de quem se foi e continua vivendo porque a vida se impõe, apesar de tudo. Daí a ficar bem é outra história e talvez seja uma história longa.

Falei isso e me lembrei de outra narrativa sobre o luto, que é a série This is us. Ela fala sobre várias coisas, na verdade, mas a história gira ao redor da morte de um dos personagens e do processo de luto e (re)construção da vida de todos após esse acontecimento. É bem interessante e, assistindo, me identifiquei com várias coisas também. Talvez vocês se interessem.

E é isso, não tenho conclusões, só notas sobre as notas. A todos que estejam passando pelo luto e chorando a morte de alguém querido, envio meu abraço e espero que, de alguma forma, meus compartilhamentos sobre o tema até agora sejam de alguma ajuda.

Até mais ler!


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