Compartilhando análises – 01: Figurações do negro em Úrsula e Cancros Sociais

Oi, pessoas!

Comentei com vocês na publicação anterior que, de vez em quando, viria aqui compartilhar alguns trabalhos de literatura que tenho feito no curso de Letras. Não esperem artigos acadêmicos ou algo parecido, são apenas o que são: trabalhos de final de curso. Para quem não está habituado, os trabalhos de final de curso geralmente são usados para avaliar se nós, alunos, entendemos o que foi ensinado durante o semestre e se conseguimos mobilizar conceitos estudados e elaborar um raciocínio sobre um tema específico, ou sobre o todo.

Por que reforço isso? Porque levo muito a sério a produção acadêmica e não posso deixar que trabalhos mais simples como esse sejam usados de maneira equivocada. Falo isso especialmente para novos estudantes que vão à internet buscar fontes, porque sei como funciona isso. Se você chegou aqui por acaso, procurando textos de apoio para seu próprio trabalho, certamente pode utilizar essa publicação para te ajudar a entender o assunto ou te inspirar em alguma coisa, mas não é recomendável usá-la como bibliografia básica, porque não é um texto de referência. Repito, é apenas um trabalho de final de curso. Nem vou comentar muito sobre o plágio, pois, além de ser crime, é muito fácil para os professores encontrarem a fonte da cópia, então, se precisarem citar alguma coisa, usem a referência no final desta publicação.

Mas, bem, também não menosprezo meu próprio trabalho ou textos pontuais de colegas. Em cada escrita há leitura, dedicação, um exercício do pensamento e sempre, até nos textos acadêmicos, uma dose de criatividade. Então o que espero compartilhando esses trabalhos é, primeiro, dividir minhas leituras e análises com vocês, como já faço no blog, mas em outro formato. Segundo, inspirar qualquer outro trabalho ou ideia que surja a partir desse. Terceiro, provocar o desejo da leitura dessas obras, talvez com outro tipo de olhar.

Gosto dos trabalhos das matérias de literatura porque, geralmente, os professores oferecem vários temas – dentro do que vimos durante o semestre – para a gente escolher e escrever mais ou menos livremente. No semestre passado, em Literatura Brasileira III, estudamos o Romantismo. Entre diversos escritores, havia na bibliografia duas mulheres: Maria Firmina dos Reis, com o livro Úrsula e Maria Angélica Ribeiro, com o livro Cancros Sociais. A proposta de trabalho era analisar a figuração do negro nessas duas obras. Meu trabalho foi escrito um pouco às pressas, então tenho ciência de que a análise poderia ser mais completa e aprofundada, mas foi o que consegui fazer na correria do fim do semestre (essa vida da trabalhadora-estudante que vocês já conhecem). Enfim, sem me prolongar mais, compartilho o texto logo abaixo. Se já tiverem lido essas obras e quiserem trocar figurinhas nos comentários, vou gostar muito! Para quem ainda não leu, espero que esse trabalho desperte o interesse nesses livros tão importantes.


Introdução – Maria Firmina e Maria Ribeiro

São duas escritoras, duas mulheres com o mesmo nome e com posicionamentos críticos parecidos. Mas as vivências e contextos são diferentes. A tarefa de comparar as obras de duas importantes escritoras brasileiras não pode começar sem entendermos que o que se escreve está interligado, de alguma maneira, ao que se vive. Antonio Candido, em Literatura e Sociedade, nos fala sobre a impossibilidade de separar uma obra literária de seu contexto. Ele diz que “A obra depende estritamente do artista e das condições sociais que determinam a sua posição” (CANDIDO, 2008, p. 40). Considerando isso, entendemos que as diferenças encontradas nos dois livros em relação à figuração do negro não podem ser entendidas fora de um contexto sociocultural e econômico. 

Maria Firmina dos Reis foi uma mulher negra, maranhense, professora ocupando um lugar inédito e fora do comum para mulheres negras de sua época. Maria Ribeiro foi uma mulher branca, com sólida base econômica e em contato com o maior centro cultural do país em sua época.

A comparação começa nas primeiras páginas dos dois livros, nos prefácios escritos pelas autoras. Maria Firmina dos Reis começa Úrsula refletindo, com certa ironia, sobre o possível alcance de sua obra. Ainda assim, ela insiste na publicação dizendo que, assim como um filho, apresenta o livro apesar de suas possíveis deformidades e afirma que, ao menos, ele poderá servir de incentivo a outras mulheres.

Em um contraste interessante, Maria Ribeiro apresenta Cancros Sociais em um prefácio no qual relata todo seu percurso como escritora e se posiciona enquanto dramaturga. Ela conta ainda sobre seus escritos anteriores e sobre as influências e os contatos que colaboraram para que ela chegasse ao lugar em que se encontrava naquele momento. 

Essa comparação, que coloca Maria Ribeiro em uma posição de certo privilégio, não pode servir para tirar seu mérito nem menosprezar suas obras e seu legado. Muito menos deve ser usada para questionar seu comprometimento com questões importantes, como o antiescravagismo e o papel da mulher na sociedade. Não se trata de uma comparação para diminuir a importância dessa autora, que é uma das pioneiras da dramaturgia escrita por mulheres em nosso país. A proposta do trabalho é a de mostrar que, embora as duas escritoras tenham uma abordagem antiescravagista e abolicionista, a figuração do negro em suas obras tem foco e abordagens diferentes, sendo que a principal diferença está no protagonismo do negro na obra de Maria Firmina dos Reis, o que não acontece na peça de Maria Ribeiro. 

Vejamos essas diferenças nos elementos presentes nessas obras que possuem uma inegável importância não apenas literária, mas também social, em sua época e até os dias de hoje. 

A condição da escravidão 

Tanto em Úrsula quanto em Cancros Sociais, a escravidão aparece como algo abominável, uma violência por parte dos brancos e algo que não deveria existir. Mas a condição da pessoa escravizada aparece de maneira diferente nos dois livros. 

Em Úrsula, a escravidão, apesar de dura e execrável, não embrutece a pessoa escravizada, nem retira dela as qualidades que parecem ser, até mesmo, intrínsecas aos negros. Um dos personagens principais do livro, Túlio, é descrito muitas vezes como uma pessoa generosa.

E o mísero sofria; porque era escravo, e a escravidão não lhe embrutecera a alma; porque os sentimentos generosos, que Deus lhe implantou no coração, permaneciam intactos, e puros como a sua alma. Era infeliz; mas era virtuoso; e por isso seu coração enterneceu-se em presença da dolorosa cena, que se lhe ofereceu à vista” (REIS, 2018, p. 54 -55).

Expressões como “puros de alma”, “virtuoso”, “sentimentos generosos”, traçam a imagem de um negro submisso e disposto ao autossacrifício. Maria Helena Pereira Toledo Machado (2018) discorre sobre a influência do movimento abolicionista anglo-saxão, que chegou também no Brasil. Ela apresenta o exemplo do livro A cabana do pai Tomás, como obra que desempenhou um papel importante na abrangência desse imaginário.

Nesse caso, leitores de ambos os sexos, inclusive crianças, que tiveram acesso ao enredo do romance por uma miríade de novos editoriais, como histórias em quadrinhos, livros infantis ilustrados, desenhos e cartazes, foram engolfados pela linguagem abolicionista sentimental, focada em imagens de sacrifício e resignação de homens e mulheres escravizados/as frente à truculência de seus opressores” (MACHADO, 2018, p. 30).

A questão do sacrifício é muito presente nos dois principais personagens negros da obra: Túlio e mãe Susana. Túlio, apesar de receber sua liberdade, escolhe estar ao lado do jovem Tancredo e continuar lhe servindo e protegendo. Susana, por sua vez, se recusa a entregar Úrsula e mesmo, recebendo conselhos para fugir dos sofrimentos e da morte que lhe esperavam, se entrega afirmando que, por ser inocente, não tinha nada a temer. 

Em Cancros Sociais os personagens negros que aparecem são Pedro – criado de Eugênio e sua família – e Marta, que se revelará a mãe de Eugênio. Pedro pouco aparece nas cenas, apenas cumprindo as funções de um empregado da casa. Marta é descrita como uma mulher parda clara, que deu à luz um filho branco. Marta também é descrita pelo personagem Forbes como uma “criatura inteligente e laboriosa”, mas ingênua por ter acreditado nas promessas do homem que a engravidou e lhe prometeu casamento. Em diversas partes da história, os negros são descritos como boas pessoas, mas corrompidas pela situação de escravizadas. Vejamos um exemplo:

“Eugênio: (…) em minha casa não há cativos; todo os meus servos são pessoas livres.

Matilde: Tal e qual como na minha! Abomino os escravos! São criaturas destituídas de toda a moralidade e de todos os sentimentos nobres!

Eugênio: (com amável censura) Estou desconhecendo a habitual retidão de V. Exª.

Matilde: Crê-me então injusta?

Eugênio: Pelo menos, pouco benevolente para com essa mísera classe, deserdada de todos os gozos sociais, e lançada como uma vil excrescência, fora dos círculos civilizados!

Matilde: (surpresa) Está falando sério, Sr. Comendador?!…

Eugênio: Sim, minha senhora; estou intimamente convencido que existem muitíssimos escravos morigerados e dedicados às pessoas e aos interesses dos seus senhores.

Matilde: Discordo da sua convicção. Que haja alguma exceção de regra que a autorize, concedo; mas muitíssimas?!

Eugênio: Vejo que V. Exª. É do número daqueles que pensam que o cativeiro impõe a estupidez e a desmoralização.

Matilde: Não, Sr. Comendador, sei que os instintos das paixões, boas ou más, se manifestam e se desenvolvem em qualquer estado ou condição da criatura. E nem julgue que sou apologista dessa monstruosa aberração do direito das gentes, que dá ao homem a propriedade individual sobre o seu semelhante! À ideia grandiosa do herói da nossa independência, tão magnanimamente por ele realizada nos campos do Ipiranga, devia ter-se seguido a completa abolição de uma lei que nos apresenta ao estrangeiro como um povo bárbaro e ainda por civilizar! Esse cancro, que solapa a base da nossa emancipação. Lamento a sorte anômala desses infelizes, porém… aborreço-os! Devo todos os meus infortúnios a escravos, dos quais era eu mais mãe do que senhora. É gente muito ingrata!”” (RIBEIRO, 2021, p. 77 – 78).

Nesse trecho, Matilde se coloca contra a escravidão, porém, mais por ser um problema social que atrapalha a modernização do país e mancha a imagem do Brasil frente a outros países que por, de fato, reconhecer a igualdade entre as pessoas. É interessante que, nesse momento inicial da peça, Eugênio a confronta e discorda do pensamento de que pessoas escravizadas seriam moralmente inferiores. Porém, a contradição surge quando todo seu conflito se resume em ser descoberto como filho de uma mulher escravizada e, assim, perder seus privilégios perante a sociedade.

O conflito só se resolve quando é revelado que, na verdade, Marta é liberta há muito tempo. Ela havia sido enganada por pessoas de má índole e não sabia sobre sua liberdade, que foi escondida pelo seu antigo senhor. Eugênio, portanto, nunca chegou a ser escravizado, sempre foi livre. O problema não parece ser o fato de que Eugênio é filho de uma mulher negra (considerada, na verdade, parda de pele clara). O problema seria ela ainda ser escravizada e ele, por consequência, ter sido um dia um cativo. Inclusive a atitude de Paulina, esposa de Eugênio, se transforma diante da revelação. Pensando que Marta pudesse ser uma amante de Eugênio, Paulina a tratava mal, chamando-a, entre outras coisas, de “escrava viciosa”, a descoberta de que não apenas ela é a mãe de Eugênio, mas também não é escravizada, muda toda a situação. 

A escravidão é, portanto, abominável em Úrsula e em Cancros Sociais, mas na primeira obra, ela não muda o caráter e as boas qualidades da pessoa escravizada, ao contrário do que aparece em Cancros Sociais. Nesse sentido, atribuir falta de moralidade ao escravizado parece depositar nele alguma fagulha de culpa por sua condição, o que, na peça, soa como uma crítica à sociedade da época.

A sociedade patriarcal

Nas duas obras nos deparamos com o poder, a influência e a violência da sociedade patriarcal. Em Úrsula, essa sociedade está representada na figura do comendador Fernando P., tio da jovem Úrsula, que deseja, a todo custo, casar-se com ela. Ele é um rico senhor de terras, que trata não só os escravizados sob seu controle de maneira violenta e autoritária, mas também sua irmã, o cunhado, a sobrinha e todos ao seu redor.

A narrativa mostra que o mando patriarcal e senhorial é o produtor de todos os descontroles; homens autoritários e cruéis são fruto de um sistema que não impõe nenhum tipo de autorregulação ou freio a suas pulsões egoístas. Submetidas/os a esses tiranos, mulheres brancas – esposas, noivas, sobrinhas – e escravas/os são apanhadas/os numa teia de horrores” (MACHADO, 2018, p. 39).

Não há escapatória, os principais personagens do enredo morrem ou enlouquecem debaixo do peso da autoritária sociedade patriarcal.

Em Cancros Sociais, essa sociedade aparece também na figura de homens ricos, aproveitadores e autoritários, como Antônio Forbes e o Visconde de Medeiros, mas, além disso, é representada ainda de outra forma. 

A sociedade retratada na peça por meio do círculo social de Eugênio e sua família, é formada por pessoas ricas e instruídas, que se posicionam contra a escravidão, mas que ainda fazem parte de uma elite que se beneficia da estrutura escravagista e de servidão fundamentada no patriarcalismo. É uma sociedade capaz de aceitar uma pessoa negra em seu meio, desde que seja de pele clara e não seja escravizada. Toda história também se estabelece ao redor do círculo familiar burguês que tem em Eugênio e no Barão de Maragogipe a figura patriarcal que zela pela família, pela honra e pelas aparências.

A figuração do negro: consciência e protagonismo

Por fim, podemos comparar mais um aspecto em Úrsula e Cancros Sociais no que diz respeito à figuração dos negros: a questão da (auto)consciência e do protagonismo. É interessante notar que, em Úrsula, ao contrário de em Cancros Sociais, os personagens negros são os protagonistas da história. Aliás, de suas próprias histórias, que são narradas no decorrer do livro. 

O fato de, em Úrsula, a autora ter alçado escravizados a personagens que refletem sobre si mesmos, apresentando uma narrativa de suas vidas opressivas, sempre chamou atenção. A escritora insuflou neles uma consciência que está ausente nas figuras principais do romance” (MACHADO, 2018, p. 14).

De fato, se observamos os outros personagens do livro, inclusive a própria Úrsula, que dá nome à obra, não percebemos um aprofundamento de suas complexidades, suas consciências e histórias. Todas estão em um nível superficial se comparadas à Túlio e Susana, que, para além de terem capítulos inteiros dedicados a eles, figuram no restante da história como pessoas críticas, conscientes e autoconscientes e, em certa medida, agentes de transformação, principalmente se pensamos nas atitudes de Túlio que salva Tancredo uma vez, no início da história, e tenta salvá-lo novamente, colocando sua própria vida como sacrifício para que isso aconteça. 

No capítulo dedicado à Susana, chamado “A preta Susana”, também aparece com muita força a identidade e a memória. Susana conta sua história, conta como em seu país era livre e vivia com sua família, até que foi trazida como escravizada para o Brasil. A ideia da liberdade está sempre ligada à origem africana e ao passado. 

Em Cancros Sociais não há um protagonismo dos personagens negros. O servo Pedro, como foi dito anteriormente, mal aparece na história. Marta tem um papel de destaque, mas é um papel que pode causar a ruína de seu filho. Ela não é uma protagonista com toda a complexidade que aparece nos personagens de Úrsula. A complexidade trazida por Maria Ribeiro é justamente a da escravidão que aparece como o mal maior daquela sociedade.

Considerações finais

O objetivo deste trabalho foi o de comparar a figuração do negro nas obras Úrsula, de Maria Firmina dos Reis e Cancros Sociais, de Maria Ribeiro. Para isso, alguns temas foram destacados, entendendo que todos esses pontos podem ser aprofundados em trabalhos futuros. Percebemos que, em ambos os livros, a escravidão aparece como o grande problema que precisa acabar e coloca homens e mulheres em situações de subalternos, gerando preconceito, violência e atraso. São duas obras contestadoras que colaboraram com discussões que estavam sendo feitas em seu contexto no passado, mas que ainda repercutem contribuindo com os debates de hoje em dia sobre o racismo, o machismo e o preconceito.

Bibliografia:

CANDIDO, Antonio. Literatura e Sociedade. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2008.

MACHADO, Maria Helena Pereira Toledo. Maria Firmina dos Reis: invisibilidade e presença de uma romancista negra no Brasil do século XIX ao XXI. In: REIS, Maria Firmina dos. Úrsula. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2018.

REIS, Maria Firmina dos. Úrsula. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2018.

RIBEIRO, Maria. Cancros Sociais: drama original em cinco atos. Brasília: Senado Federal, 2021.


Para quem se interessar, o livro Cancros Sociais, da Maria Ribeiro, está disponível gratuitamente em PDF na livraria do Senado. Também está à venda em formato físico, mas baixei o PDF e li no meu leitor de e-book sem problema nenhum. Deixo a dica aqui porque não é um livro de fácil acesso em livrarias.

Para citar este texto utilize a referência: Toledo F., Sarah. 2021. “Compartilhando análises – 01: Figurações do negro em Úrsula e Cancros Sociais”, Publicado em sarices.wordpress.com, url: https://sarices.wordpress.com/?p=2671. Acesso em [dd/mm/aaaa].



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