Um teto todo nosso

Recentemente li Um teto todo seu, da Virginia Woolf. Esse livro me tocou profundamente, por vários motivos e, por isso, resolvi compartilhar essa leitura aqui. Woolf discute a importância de existir condições materiais necessárias para que mulheres possam escrever, desenvolver e publicar seu conhecimento, suas investigações, suas produções literárias etc. “500 libras por ano e um teto todo seu”, é o que ela diz, mas a ideia vai muito além de uma quantia fixa, trata-se de condições estruturais que permitam o processo da escrita.

“A liberdade intelectual depende de coisas materiais. A poesia depende da liberdade intelectual. E as mulheres sempre foram pobres não só por duzentos anos, mas desde o começo dos tempos. As mulheres gozam de menos liberdade intelectual do que os filhos dos escravos atenienses. As mulheres, portanto, não tiveram a mais remota chance de escrever poesia. É por isso que dei tanta ênfase ao dinheiro e ao espaço próprio”. (p. 151)

WOOLF, Virginia. Um teto todo seu. Editora Tordesilhas, 2014.

Woolf diz que, para conseguir escrever, uma mulher precisa ter seu próprio espaço, onde não sofra interrupções, tenha silêncio e não precise se preocupar com questões domésticas, por exemplo. Enfim, onde possa se sentar e escrever com toda a liberdade possível, sem precisar dividir sua atenção com coisas exteriores ao processo criativo e intelectual. Para isso, seria imprescindível ter dinheiro. Uma quantia que seja suficiente para suprir suas necessidades.

Não tem sido assim ao longo dos séculos. Woolf busca conhecer as condições das mulheres em diversas épocas da História para entender por que não havia (ou, se sim, poucas) mulheres escritoras em alguns períodos. Casamentos forçados seguidos de filhos, impossibilidade de estudar, pobreza, tudo isso impediu que mulheres que poderiam ter sido geniais, talvez grandes nomes da Literatura, se tornassem escritoras. Woolf faz um exercício de imaginação ao se questionar como seria se Shakespeare, por exemplo, tivesse uma irmã que quisesse se dedicar ao teatro, como ele. Ela teria alguma chance?

“Aqui estou eu, perguntando-me por que as mulheres não escreviam poesia durante a era elisabetana, e não tenho certeza de como elas eram educadas; se alguém as ensinava a escrever; se possuíam salas próprias; quantas mulheres tinham filhos antes dos vinte e um anos; o que, em resumo, elas faziam das oito da manhã até as oito da noite. Elas não tinham dinheiro, é evidente; de acordo com o professor Trevelyan, elas se casavam querendo ou não, antes mesmo de sair dos cueiros, provavelmente aos quinze ou dezesseis anos. Teria sido extremamente incomum, mesmo considerando essa demonstração, que inesperadamente uma delas tivesse escrito as peças de Shakespeare (…)” (p.69)

WOOLF, Virginia. Um teto todo seu. Editora Tordesilhas, 2014.

É doloroso pensar que, quase 100 anos depois, algumas situações permanecem iguais e outras surgiram para incrementar o pacote de aspectos que dificultam o crescimento intelectual de muitas mulheres e impossibilitam o processo de escrita. No mundo atual podemos considerar, por exemplo, as 40 a 48 horas semanais de trabalhos quase automáticos e que não estimulam o pensamento crítico. Soma-se a isso o segundo turno – o trabalho doméstico que raramente é dividido de maneira igual com companheiros. Se há filhos envolvidos, o trabalho é triplicado.

Em outro contexto, podemos pensar nas bolsas de pesquisa que não são suficientes nem para pagar um aluguel decente, dependendo da cidade onde se vive e o fato de que em muitos países, como o Brasil, a produção científica é extremamente desvalorizada. É verdade que isso afeta aos homens também, mas para eles não há o agravante do machismo, dos assédios, da subestimação e humilhação que passam muitas mulheres no meio acadêmico.

Podemos ainda pensar em inúmeras mulheres presas a relacionamentos abusivos de diversos tipos, sem a chance sequer de estudar e se desenvolver profissionalmente. Embora o mundo tenha mudado muito desde que Woolf escreveu esse livro e algumas coisas tenham melhorado, o fato é que ainda falta um longo caminho para dizermos que temos um teto todo nosso. Ainda hoje, basta olharmos para as prateleiras das bibliotecas e livrarias, para a bibliografia dos programas das universidades, para as traduções e originais publicados pelas editoras, para nos darmos conta de que estamos longe disso.

Talvez eu não tenha sido muito objetiva ao comentar sobre esse livro aqui, mas é porque, entre os vários sentimentos que ele me despertou, está o de identificação. O livro me tocou de verdade porque identifiquei a mim mesma e a tantas mulheres que me cercam, pesquisadoras, escritoras, artistas que abandonaram seus processos criativos e intelectuais ou tentam, com muita dificuldade, mantê-los ao mesmo tempo em que tentam manter, literalmente, um teto sobre suas cabeças. Mas seguimos. Muitas de nós já possuem condições e estão voando alto, graças às mulheres que vieram antes, como a própria Virginia Woolf. Que isso se multiplique e que se construa não apenas um teto, mas uma estrutura forte e resistente!

“A literatura está aberta a todos. (…) Tranque as bibliotecas, se quiser; mas não há portões nem fechaduras, nem cadeados com os quais você conseguirá trancar a liberdade do meu pensamento”. (p. 109)

WOOLF, Virginia. Um teto todo seu. Editora Tordesilhas, 2014.

Ps: Minha vontade era de compartilhar um milhão de citações, mas acho melhor recomendar a leitura. Woolf escreve de um jeito tão extraordinário! Parece que você está lendo um romance, mas é um ensaio incrível sobre a mulher na literatura. Por favor, leiam!


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