Manhãs de domingo

De vez em quando encontro meu pai por aí. Domingos pela manhã, por exemplo, sempre acordo esperando escutar seus movimentos na cozinha. A cozinha era quase seu habitat natural e com que prazer ele preparava todas aquelas refeições! Dava para sentir essa dedicação no molho, no tempero simples e preciso, nas preparações clássicas que já eram sua especialidade. Gosto bom, de carinho.

Aos domingos, eu acordava já sentindo o cheiro da batata cozinhando na panela de pressão, o cheiro da salsinha picada bem pequenininha, como só ele conseguia picar, ou o cheiro da cebola queimada, técnica que ele orgulhosamente usava para temperar carnes. Ele se movia pela cozinha, fazendo suas mágicas culinárias e eu despertava com aquela pequena grande dose de felicidade causada por aqueles sons e cheiros.

Nesse espetáculo matinal, dois sons principais eram recorrentes: a televisão ao fundo, ligada na Fórmula 1 – que ele fazia questão de assistir até mesmo os treinos -, ou música. Algumas músicas antigas, que não eram nem da época dele. Acho que era um modo de lembrar e reviver seu passado. Eram músicas que sua mãe escutava quando ele era criança, provavelmente enquanto ela também realizava sua mágica culinária. Minha avó gostava de cozinhar e há testemunhas do quão bem ela cozinhava. Deve ser genético, dessa genética cultural que se passa por meio da vivência e do cuidado.

A trilha sonora do meu pai na cozinha o remetia à minha avó. Hoje, quando eventualmente me deparo com algumas dessas músicas, elas me remetem aos dois. Foi assim que, nesse domingo, encontrei meu pai novamente. Revendo um texto do blog, encontrei um comentário dele. Meu pai comentava às vezes nas coisas que eu escrevia, não sei se para dar algum tipo de incentivo ou só para dialogar mesmo. Para mim, é uma surpresa boa quando encontro comentários dele por aí. As lembranças da internet me permitem isso e releio como se fosse realmente alguma mensagem escondida que ele deixou, como meus irmãos e eu fazíamos quando éramos crianças e espalhávamos bilhetinhos pela casa para que fossem encontrados por meu pai e minha mãe. Mesmo já tendo lido esses comentários no momento original que foram enviados, quando me deparo com eles, é como se fossem inéditos.

Nesse comentário específico, ele citava a música Gente Humilde, dizendo que era cantada pela Ângela Maria. Na verdade, ele citava um trecho da canção, que procurei e facilmente encontrei na voz de vários artistas. Mas ele disse Ângela Maria, então procurei ouvir a versão cantada por ela. Ouvir essa voz me levou direto para as manhãs de domingo. O coração sorriu e transbordou um pouquinho pelos olhos. Dessa vez o bilhetinho escondido veio com música, para me lembrar o quanto ainda está vivo dentro de mim.

Hoje é domingo à noite. Ele estaria esquentando a comida do almoço, sem se importar se já é tarde para comer algo pesado. O mesmo prazer que tinha por cozinhar, tinha por comer. No final do dia, era feliz.


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