E a terapia, ajuda mesmo?

Em 2018 tive uma prioridade: cuidar da saúde emocional. Na minha listinha de “coisas para fazer” ela estava no topo e me sinto orgulhosa de ter conseguido me dedicar a isso. Retomando a conversa da última publicação, sobre fazer um pequeno balanço de temas que foram importantes para mim em 2018, hoje vou falar um pouco sobre essa experiência. Obviamente não entrarei em detalhes pessoais que só são importantes para mim, quero falar sobre a experiência de fazer terapia e dar atenção a um aspecto da vida que muitos de nós abandonamos e que, na verdade, deveríamos dar mais atenção.

Todos os dias aparecem notícias, estudos e análises mostrando um aumento no número de pessoas que têm sofrido com problemas emocionais e psicológicos, como ansiedade e depressão. Sei que as mudanças estruturais na sociedade, as pressões impostas pelo sistema em que vivemos e o avanço da tecnologia contribuem muito para isso. Porém, acho interessante olhar para o outro lado dessa história que é: talvez não seja apenas o número de pessoas com transtornos psicológicos que está aumentando, mas também o fato de mais pessoas ganharem segurança para perceber ou assumir que o que “está errado” com elas não é frescura, mas algo que pode ser tratado e que elas podem pedir ajuda. Ainda há muito preconceito e desconhecimento, mas parece que isso tem mudado aos poucos.

Eu sou de uma geração que ainda encara o tratamento psicológico com certo preconceito. “Fazer terapia é bobagem, contar sua vida para um desconhecido para que?”, “isso é frescura de gente rica”, “mas vai ajudar em que?”, são as frases mais repetidas. No meu contexto ainda tem a questão da religião: “é só orar”, “fulano está em depressão porque não tem fé suficiente”, entre outras falas irresponsáveis. Acho que não preciso dizer que nem todos os cristãos pensam assim, mas há uma parcela significativa.

Enfim, faço parte dessa geração e contexto que vê o tratamento psicológico com desconfiança, ou como algo inútil. Talvez isso tenha sido o principal responsável pela minha demora em procurar ajuda. Nos momentos em que mais precisei desse apoio psicológico o que fiz foi ignorar, joguei tudo para debaixo do tapete com um pensamento que variava entre: “bobeira, tudo isso se resolve, é só uma fase” e “é melhor deixar tudo debaixo do tapete mesmo, porque mexer dá muito trabalho”. Depois de um tempo, até reconhecia que seria bom fazer terapia, mas aí o pensamento era: “isso é para gente rica e não tenho dinheiro”. A questão é: a sujeira debaixo do tapete em algum momento se acumula muito e começa a sair pelos lados.

Para mim, mudar de país foi o que fez essa sujeira transbordar. Não que a mudança tenha sido ruim, pelo contrário, me proporcionou muitas coisas boas. Mas sair de uma zona de conforto (ou da inércia, como queira chamar) e, ao mesmo tempo, lidar com a solidão de ser estrangeira em um lugar onde não conhecia quase ninguém, me colocou frente a frente comigo mesma e aí não teve jeito. Ainda assim, demorei um pouco para procurar ajuda. Até que aconteceu uma perda repentina e muito dolorosa que, definitivamente, fez com que eu não conseguisse lidar comigo mesma sozinha. Eu não conseguia estar dentro da minha cabeça e precisava de alguém que me ajudasse a organizar a mente.

Sempre tive pessoas ao meu lado para me apoiar e ajudar. Mas os amigos, a família, o esposo não foram suficientes. Ou melhor, eles não eram o tipo de apoio que eu precisava naquele momento. Por mais que existam boas intenções, o apoio que nossos entes queridos nos dão não é profissional. É ótimo e necessário contar com essas pessoas, mas assim como precisamos de um médico quando temos uma enfermidade no corpo, precisamos de tratamento quando não estamos bem psicologicamente.

Quando comecei a terapia ainda estava morando na Colômbia. Procurei uma psicóloga brasileira, porque não me sentia à vontade para falar dos meus sentimentos em outro idioma. Às vezes nem na nossa língua a gente consegue explicar o que sente. Essa psicóloga também morava em outro país e me atendia por Skype. Para mim foi essencial tudo isso, porque eu sentia que ela conseguia entender muitas questões que rondavam minha mente naquele momento. O fato do meu pai falecer e eu estar longe foi muito difícil para mim. Eu sentia que ela conseguia entender melhor essa dor, por estar em uma situação parecida com a minha.

Esse é um ponto muito importante na hora de procurar apoio psicológico. É verdade que uma pessoa que seja boa profissional precisa lidar com qualquer caso que apareça (dentro das especialidades), mas a psicologia não é uma ciência exata. É muito importante ter uma identificação entre psicólogo e paciente, ter um grau considerável de empatia também, para que o tratamento funcione o melhor possível. Lembro de uma passagem do livro Mamãe & Eu & Mamãe, da Maya Angelou, em que ela conta um episódio em que teve uma crise e foi procurar um psiquiatra. Ela foi a uma clínica e solicitou uma consulta de urgência, pois corria o risco de machucar a si mesma ou a outras pessoas. Quando ela entrou no consultório, se decepcionou. Ela diz no livro:

“Abri a porta da sala C e minhas esperanças se esvaneceram. Atrás da mesa, havia um jovem rapaz branco que usava um terno da Brooks Brothers e uma camisa social, o rosto cheio de calma e confiança. Ele me indicou uma cadeira em frente à sua mesa. Sentei e olhei para ele mais uma vez e comecei a chorar. Como aquele jovem branco privilegiado poderia entender o coração de uma mulher negra, que estava doente de culpa por ter abandonado seu filhinho negro para outras pessoas criarem? A cada vez que eu olhava para ele, as lágrimas inundavam meu rosto. A cada vez ele perguntava qual era o problema e “Em que posso ajudar a senhora?”, eu me sentia enfurecida pela impotência da minha situação. Finalmente, consegui me recompor o bastante para me levantar, agradecer e sair.” (p. 121)

ANGELOU, Maya. Mamãe & Eu & Mamãe. Editora Rosa dos Tempos, 2018.

Pode parecer bobagem para algumas pessoas, mas essa identificação faz toda a diferença. As questões que nos atormentam muitas vezes só podem ser compreendidas de verdade  por quem vive ou viveu algo parecido, ou que pelo menos tem mais chances de compreendê-las. Algo que fiz questão, por exemplo, foi de não fazer terapia com um profissional do gênero masculino. Há assuntos que dizem respeito à minha experiência como mulher e acredito que, por mais boa vontade que exista, um homem não conseguiria nunca entender ou ter empatia. Ou eu nunca me sentiria à vontade para falar. Então considero, sim, importante buscar essa identificação.

Esse meu primeiro contato com a terapia foi essencial para me tirar da confusão mental enorme em que me encontrava naquele momento. Para, minimamente, colocar as ideias no lugar e, principalmente, lidar com o luto inicial pela morte do meu pai. Me fez bem, me ajudou entender alguns processos e a tomar decisões importantes, mas tive que parar por questões financeiras. Quando me senti um pouco mais calma, emocionalmente falando, decidi fazer essa pausa, que também coincidiu com meu retorno ao Brasil. Fiz essa pausa, mas sabia que queria continuar com a terapia. Quando cheguei ao Brasil, por indicação de uma amiga, fui a um instituto que oferece tratamentos com um preço mais baixo (vou deixar as informações no final desse post, para quem mora em São Paulo e tiver interesse). Aí comecei a ser atendida pela psicóloga que me atende até hoje.

Uma pergunta que escuto muito é: “tem ajudado realmente? Faz diferença?”. Posso dizer que há momentos em que eu mesma me pergunto isso. Às vezes tenho a sensação de ter avançado um pouco no início, mas agora estar parada no mesmo lugar por muito tempo. Acho que esse tipo de questionamento é comum e tem a ver com o quanto a gente também está disposto a mexer nessa tal sujeira debaixo do tapete, porque lidar com ela não é fácil. Em geral, sim, tem me ajudado muito, tem feito a diferença e acho que minha principal conquista neste ano em relação a isso, tem sido entender meus sentimentos e organizar meus pensamentos. Parece pouca coisa, mas faz toda a diferença você saber se está triste ou com raiva, por exemplo, e o porquê. De forma prática, isso me ajuda muito a respeitar meus limites em diversas áreas da minha vida.

Enfim, a terapia tem me feito bem, mas não posso dizer que agora me sinto uma pessoa totalmente plena e bem resolvida. É um processo que pode ser lento e às vezes, dependendo do que a pessoa sofre, pode durar a vida toda. No meu caso, são caminhos que estou trilhando e que, inclusive, podem ser mudados. Me encontro num momento, por exemplo, em que não me sinto tão à vontade assim com minha psicóloga, o que me bloqueia em falar sobre alguns assuntos que me afetam. Por outro lado, ela me ajuda muito em outras questões e fico nesse dilema se devo mudar ou não de terapeuta. Outra questão é o dinheiro. Por mais que eu pague mais barato, é um dinheiro mensal que, no momento atual da minha vida, faz muita diferença. Existem outras áreas que demandam atenção e dinheiro e que também são importantes. Neste ano fiz um esforço bem grande porque coloquei isso como prioridade, precisava me sentir melhor. Deu certo, mas não é simples. Talvez nunca seja mesmo. De qualquer forma, acho que importante se movimentar para tentar sair de uma situação ruim.

Financeiramente falando, terapia não é para todo mundo, infelizmente. Existem muitas clínicas que atendem gratuitamente, é verdade, mas pela demanda que existe, não são suficientes. Além do mais, ainda não é dada à saúde mental a importância que ela deveria ter. Isso tem mudado um pouco, mas ainda há muito o que ser feito.

Para terminar, espero que contar essa experiência aqui seja útil para algumas pessoas. Sinto que não falei nem um terço do que poderia falar sobre esse assunto, porque minha experiência não é assim tão complexa, na verdade. Não sofro de uma depressão profunda, por exemplo. Tenho uma rede de apoio. Sei que há pessoas em situações muito mais difíceis, sobre quais eu não saberia nem falar aqui. O que posso compartilhar é minha experiência e dizer que se você sente que precisa de ajuda profissional e tem a chance de obtê-la, não pense duas vezes. Não menospreze seus sentimentos, suas experiências e suas dores.

Vou deixar AQUI o link do instituto pelo qual cheguei à psicóloga que me atende hoje. Você pode entrar em contato por e-mail e eles agendam uma consulta de triagem. Além de falar um pouco sobre si mesmo, você responde um questionário socioeconômico e daí eles podem te encaminhar para um atendimento gratuito, ou para o que chamam de clínica solidária, que são psicólogos que cobram menos pela consulta, a tornando um pouco mais acessível. Esse instituto fica em São Paulo e, além dele, existem vários lugares parecidos que oferecem tratamento gratuito ou a um preço mais baixo. Vale a pena pesquisar na internet.

Se você não mora em São Paulo, procure na sua cidade, pois geralmente tem algum tipo de atendimento assim, principalmente em universidades onde tenha o curso de psicologia. Ou, se não tem na sua cidade, procure também por atendimento à distância. Não sei se o atendimento à distância é o ideal em alguns casos, mas existem situações em que pode ser, de fato, a melhor opção, como foi para mim no início, inclusive. Minha recomendação principal é que procure em lugares sérios e reconhecidos, porque como em qualquer área, há alguns psicólogos picaretas por aí também, que podem mais atrapalhar que ajudar.

Obrigada por lerem até aqui!  Se você conhece locais de atendimentos gratuitos em sua cidade, deixe aí nos comentários. Pode ser que, coincidentemente, alguém do mesmo lugar caia nessa publicação e a informação seja útil. Até a próxima!

….

Para citar este texto utilize a referência: Toledo F., Sarah. 2019. “E a terapia, ajuda mesmo?”, Publicado em sarices.wordpress.com, url: https://sarices.wordpress.com/2018/12/12/e-a-terapia-ajuda-mesmo/. Acesso em [dd/mm/aaaa].


2 comentários sobre “E a terapia, ajuda mesmo?

  1. Vou deixar aqui um comentário que uma amiga fez no Facebook, quando compartilhei esse post lá. Pode ser que sirva para alguém:

    “Não consegui comentar no blog então comento aqui mesmo. Tenho uma experiência bastante semelhante com a terapia. Só resolvi procurar depois de traumas e certamente foi fundamental.
    Busquei a Clínica Pública de Psicanálise (tem página aqui no Facebook ) por uma identificação ideológica e isso certamente foi fundamental para que eu conseguisse desenvolver uma relação de confiança com o psicanalista. A Clínica é gratuita e funciona no espaço do centro cultural da Vila Itororó, pertinho do metrô São Joaquim. A Clínica conta com o trabalho voluntário e militante de diversos psicanalistas, tanto homens quanto mulheres. Fica a dica então para quem está em busca de um espaço democrático e de qualidade.”

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