Por que não?

Dezembro ainda não chegou, mas já estou no clima de fim de ano. Acho que é porque tudo o que eu tinha de mais importante para fazer em 2018, finalmente acabou. Claro, sempre tem coisas para fazer e nem vamos falar dos imprevistos. Mas acho que os pontos centrais da minha lista deste ano foram riscados. Quero falar sobre alguns deles no blog porque, como sempre, gosto de compartilhar experiências que, de alguma maneira, podem ser úteis para outras pessoas. Não vou entrar em detalhes muito pessoais, porque acho que isso não tem relevância, quero falar de aspectos mais gerais. Isso não vai durar só uma publicação, senão esse texto ficará enorme. Vou dividir por assuntos e publicar aos poucos até o fim do ano.

“Por que não?” foi uma pergunta que me guiou em alguns momentos em 2018. Não foi de uma forma loucona, do tipo alguém me perguntar: “vamos pular paraquedas hoje à tarde” e eu responder: “por que não?” e me jogar lá das alturas. Não. Foi em relação a coisas que eu já vinha pensando há tempos. Coisas que, de algum modo, lá no fundo do coração, já tinha decidido e, por algum motivo (talvez medo, vergonha, preguiça), não coloquei em prática antes. Posso dizer que isso perpassou várias áreas da minha vida, mas talvez a principal tenha sido a profissional/ intelectual.

Há um bom tempo brotou uma sementinha dentro de mim. Comecei a pensar em estudar outra coisa, fazer outro curso de graduação. Ao mesmo tempo em que tentava ignorar, essa semente crescia até se transformar em uma árvore gigante. Mesmo assim, eu me barrava, tentava me convencer de que não era esse o caminho, que seria um retrocesso, afinal, já tenho um mestrado, o caminho lógico e “natural” seria fazer um doutorado, não outra graduação. Primeiro, porque seria começar do zero profissionalmente, o quanto isso poderia ser difícil? Segundo, eu teria mesmo pique para outra graduação? Com 30 anos nas costas? E o doutorado? Eu iria mesmo abandonar essa ideia? Se não, fazer outra graduação, não iria me atrasar demais?

Eram muitas questões que me deixavam angustiada e me causavam algumas crises de ansiedade. Por um lado, no fundo, eu já sabia o que queria. Não estava (não estou) disposta a tentar um doutorado nesse momento. Na real, não sei se algum dia estarei. Já contei aqui no blog toda a minha saga acadêmica nas Ciências Sociais, até terminar o mestrado e, honestamente, tudo isso me marcou muito. Quando visualizo um doutorado, imagino todo o estresse, as pressões, as ansiedades e um desequilíbrio emocional. Não posso e não quero lidar com isso agora. Não podia há quatro anos, quando terminei o mestrado e ainda não posso. Por outro lado, eu tentava ignorar o que realmente queria fazer para tentar ser um pouco “racional” e ir pelo caminho lógico, profissionalmente falando. Afinal, minha vida agora é outra. Não tenho mais 20 anos. Vale a pena começar tudo zero?

Nesse ponto, olhar para meus amigos e colegas de faculdade mexia muito comigo. É a velha mania de nos compararmos aos outros, mesmo sabendo que cada história é uma história. Sofri. Demorei muito para finalmente tomar uma decisão. Sei que para algumas pessoas isso pode parecer um grande drama. “Nossa, mas é tão simples decidir, faz logo outro curso, se é o que você quer”, ou “não faz, para que perder tempo com isso?”. O “tão simples decidir” poderia ser aplicado em qualquer decisão. Para quem está de fora sempre é mais simples mesmo. Para mim demorou. Essa decisão envolvia, inclusive, questões emocionais, frustração profissional, a ideia de mudar o rumo da minha vida. Precisava ter certeza de que decidir entrar em outro curso não era só uma questão mal resolvida do mestrado, por exemplo, mas uma decisão sincera comigo mesma, porque eu queria aquilo e pronto. E por que não?

Por que pensar que a vida tem um roteiro a ser seguido e se eu saio um pouquinho que seja desse roteiro, estou errada? Acho que mesmo cientes de que não precisa ser assim, nós muitas vezes nos boicotamos, nos rendemos às pressões de seguir esse “caminho lógico”, essa linha do tempo pré-definida. Estude, entre na faculdade, trabalhe, ganhe dinheiro, se case, tenha filhos, talvez compre uma casa, um carro, viva sua vida assim e finalmente morra. É certo que esse roteiro não é para todas as pessoas. No Brasil há várias que não conseguem chegar nem no primeiro ponto, que é estudar. É um privilégio em relação à maioria decidir se faço uma segunda graduação enquanto tem gente que não pode fazer nem a primeira. Sem menosprezar meus próprios sentimentos e de pessoas que talvez estejam na mesma situação, mas é um privilégio.

Pois bem, a decisão foi tomada. Neste ano, dez anos depois de entrar na faculdade de Ciências Sociais, resolvi fazer o vestibular para Letras. Fiz o ENEM também. Fui revisar coisas que não via há muitos anos e nem lembrava, para poder fazer essas provas. Pausei meu desafio literário aqui do blog para ler os livros obrigatórios do vestibular. Vou mentir se falar que não me diverti um pouco em todo esse processo. Estudar para essas provas me proporcionaram momentos de lazer nessa fase da minha vida. Estou animada com a ideia de passar e começar a estudar algo que me empolga.

Depois de tudo, não vejo como um retrocesso. Primeiro, porque estudar nunca é retrocesso. Segundo, que não vejo impedimento algum em unir essas duas carreiras. As Ciências Sociais (ou a Antropologia, que sempre foi minha área do coração) sempre significou, para mim, uma interdisciplinaridade. Nas minhas pesquisas tinha Literatura, História e Antropologia. Nunca consegui separar essas três dimensões e, se eu realmente começar esse novo curso, vai ser só para unir todas elas ainda mais.

É isso. Ainda não sei se vou conseguir entrar numa nova graduação para o próximo ano, mas compartilho tudo isso aqui porque acho que, independentemente do resultado, o processo já valeu muito e, talvez, compartilhar essa experiência sirva para pessoas que estão em situações parecidas. Estou feliz e tranquila com minha decisão e com a perspectiva de começar algo novo. Óbvio que quero passar e espero que dê tudo certo. Torçam por mim.

11 comentários em “Por que não?

  1. Oi, Sarah!
    Parabéns pela decisão! Lendo o texto, estava ansiosa para saber o curso, fiquei muito feliz ao ver Letras!! É um curso tão maravilhoso, não tem como não acrescentar… espero que você goste. Estava falando hoje mesmo com uma aluna que passou para a segunda fase da fuvest, que eu faria letras de novo, e não falo retrospectivamente, quero dizer que eu poderia estar em letras agorinha mesmo 😉 Bjos, boa sorte, bons estudos!!

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    1. Oi, Val! Obrigada pela torcida! Você acredita que Letras sempre foi minha segunda opção? Quando fiz vestibular a primeira vez já flertava com letras, rs. Chegou a hora de estudar outra coisa que também me encanta. Espero que dê tudo certo e eu consiga. Ver o ânimo de quem já estuda ou estudou Letras aumenta o meu. Obrigada! Beijos.

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  2. Oi Sarah,
    Primeiro esse seu texto é muito importante acho que nesse infinito que é a internet, poderá com certeza inspirar muitas pessoas com as mesmas angústias.
    Depois fiquei pensando que assumir, dizer coisas para nós mesmos é tão difícil, você levou dois anos, outros levam uma vida e não conseguem.
    Espero que você leve para sua nova trajetória toda a bagagem que você construiu ao longo dos anos, foi seu passado e todo acúmulo que te trouxe aqui.
    Por fim seu blog tem um conteúdo muito bom, depois que conheci suas listas literárias já coloquei alguns que vi aqui para ler ( mas sou um desastre para listas, quero melhorar isso) então espero que através do seu curso você inspire ainda mais seus leitores ou quem sabe alunos?

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    1. Oi, Raquel! Obrigada pelo apoio e palavras de motivação! Espero de verdade que esse provável recomeço seja ótimo para mim e para eu compartilhar com outras pessoas também, seria ótimo!
      Minha lista desse ano está um pouquinho atrasada, rs, mas estou colocando em dia. Que bom que tem sido inspiração! Fico feliz! ❤
      Obrigada pela visita sempre! Um abração! ❤

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  3. “Se tenho esse tipo de conflito é porque tenho o privilégio de poder tê-lo.”
    Esse pensar em nossos privilégios é algo que me ronda esses tempos. Enquanto lia, pensei no privilégio que estar sem trabalhar. sem renda nenhuma mesmo! quem tá me levando é minha mãe desde que minha bolsa pequena de graduação acabou… (e nessa hora ela parece enorme).

    eu penso que precisamos nos respeitar e nos escutar (quase sempre isso é difícil), mas a gente segue tentando. você ter tomado a decisão foi “se escutar” e respeitar sua vontade de fazer outro curso.
    te desejo tudo de melhor nessa etapa, viu? e de uma pessoa que já cursou letras (uhu, recém-formada!) desejo que sua jornada nesse curso seja tão boa quanto foi a minha. abraço apertado. sempre bom passar por aqui!

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    1. Oi, Pamela! Sobre os privilégios, é algo que penso muito também. É difícil pensar em tudo isso, porque se a gente for ver nossa situação, não parece que somos muito privilegiadas. Me vejo com 30 anos, frustrada profissionalmente (apesar de amar tudo que estudei na minha formação), procurando trabalho, tentando começar um curso novo, recomeçando muitas coisas. Tô com uma idade que muitos esperariam estar “encaminhados” na vida e eu “não tenho nada”, parece loucura falar em privilégio. Mas, por outro lado, é isso, se eu posso estar nessa situação de falar: “vou mudar tudo, aguenta as pontas com o dinheiro aí, marido, deixa eu ficar um tempinho na sua casa, mãe, não tenho filhos pra criar, nem nada”, isso é um privilégio. Como é o seu em ter um teto e comida e uma mãe maravilhosa que te apoia enquanto você não recebe um salário. Acho que a gente precisa valorizar tudo isso, sabe? Que bom que podemos contar com essa base enquanto nos construimos e nos reconstruimos, deveria ser assim pra todo mundo, infelizmente não é. Mas não devemos nos sentir culpadas por termos isso. Acho, sim, que nosso dever é fazer alguma coisa com esse privilégio. Se podemos crescer nos apoiando nisso, que façamos alguma coisa para devolver nosso tempo, nosso conhecimento e tudo mais. ❤

      Obrigada pelo apoio e pela torcida! Tenho bons pressentimentos e se eu passar, sei que vai ser ótimo. Fico empolgada só de ver a grade curricular. hahahaha…

      Um abração!

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