Meu cabelo, minha identidade

Muitas pessoas têm elogiado meu cabelo cacheado e, não vou ser modesta, ele está cada dia mais bonito. Sabem por quê? Porque aprendi a cuidar dele. Vocês podem não acreditar, mas foi apenas no ano passado, com 27 anos, que aprendi a cuidar do meu cabelo. Parece meio óbvio cuidar de um cabelo, né? Lavar com xampu, um condicionador, pentear e pronto. Mas não é só isso, especialmente pra cabelos crespos e cacheados. Eu não aprendi a cuidar do meu cabelo antes por uma razão: meu cabelo está fora dos padrões. “Ai, Sarah, que exagero! Cabelo cacheado tá até na moda!”. Só que não existe essa coisa de cabelo “da moda”, o que acontece é que as mulheres, meninas e até os homens estão começando a usar seus cabelos naturais porque se sentem confiantes com eles, isso não tem nada a ver com moda.

Nunca alisei meu cabelo, acho que só passei chapinha nele duas vezes na vida e sempre gostei dos meus cachos. Mas não gostava do volume. Queria ele cacheado, mas queria um cacheado nos padrões de um cabelo liso. Então sempre andava com ele preso quando era criança, tinha vergonha de usá-lo solto. Depois, na adolescência, comecei a fazer relaxamento e fiz durante muitos anos, sei lá, uns 10. Essa é uma coisa da qual me arrependo profundamente nos dias de hoje, mas, na época, foi a alternativa que encontrei para diminuir todo aquele volume. O pior é que eu nem gostava tanto assim do resultado. 

Não sei explicar o que exatamente me fez parar de usar química. Ninguém me falou sobre isso, nem li ou vi nada em lugar nenhum. Acho apenas que me cansei dos resultados dos relaxamentos. Comecei a perceber também que perdi muito cabelo durante todo esse processo e fiquei imaginando que, em algum momento, iria ficar careca. Me assustei e resolvi não fazer mais. Mas quem passa qualquer tipo de química no cabelo sabe que raízes crescendo são um problema. Chegou um momento em que meu cabelo estava sem forma, feio, seco, horroroso. Juntou isso com a vontade de mudar de visual e decidi cortá-lo bem curto. Dessa vez eu queria volume. Já faz mais de um ano que fiz essa mudança radical e, pouco tempo depois do corte, ao procurar maneiras de cuidar do meu cabelo (produtos principalmente), descobri um universo sobre cabelos crespos e cacheados no YouTube, além de alguns sites. Aprendi muitas coisas e é isso que está fazendo meu cabelo ficar melhor cuidado, saudável e natural, que era o que eu queria.

O caso é que às vezes fico pensando nesse assunto, sobre como algo que parece tão bobo e pequeno (cuidar de um cabelo, manter ele natural), na verdade, tem a ver com uma coisa muito maior. O padrão de beleza vigente é um padrão que não admite pessoas gordas, negras, com cabelos crespos (e tantas outras pessoas). “Ai, Sarah, olha você exagerando de novo! Tem um monte de artistas com essas características que você falou”. Sério? Um monte? Não vejo eles por aí, não. Além disso, podemos listar uma série de situações que mostram que um cabelo que não é liso está, sim, fora dos padrões. Eu consigo pensar em algumas.

Por exemplo, quantas referências em programas infantis/juvenis que não tenham cabelo liso, de preferência loiro, vocês conseguem se lembrar? Para quem tem mais ou menos a minha idade, é ainda mais difícil encontrar referências da nossa época. Só consegui me lembrar de uma, a Biba, do Castelo Rá-tim-bum, lembram dela? Oh, a foto aqui:

Biba, fofa
Biba, fofa

É a única negra, de cabelo cacheado, que consigo me lembrar da minha infância. Mesmo assim, ela vivia com o cabelo preso no programa.

Outra situação: alguém de cabelo liso já fez uma mega produção para uma festa, deixou o cabelo solto e recebeu em troca comentários do tipo: “nooooossa, mas não vai dar um jeitinho nesse cabelo, não?”. Imagino que não. Mas cabelos crespos e cacheados são sempre vistos como bagunçados. Tanto que existem vários de relatos de mulheres em seus locais de trabalho que foram abordadas por seus chefes para irem com o cabelo “mais arrumado”, ou seja, liso ou preso.

Mais exemplos: nos casos mais racistas, cabelos crespos e cacheados são chamados de sujos. As propagandas de produtos para esse tipo de cabelo sempre falam como “domar os cachos”, “reduzir o volume”. Os cachos aceitáveis são sempre aqueles, na verdade, ondulados ou com cachinhos perfeitos feitos com modeladores, nunca o cabelo real.

Quando eu era criança, não havia muita informação sobre como cuidar de cabelos cacheados. Minha mãe fez o que estava ao seu alcance, com as poucas condições financeiras que tinha e nunca alisou o cabelo de suas 3 filhas cacheadas (obrigada, mãe!). Hoje em dia, felizmente, existem muito mais produtos e muito mais informação. Isso é ótimo, porque quando uma criança ou adolescente aprende desde cedo a manter seu cabelo lindo e saudável do jeito que ele é, aprende também que não precisa se encaixar em um padrão para ser bonita.

Vale dizer que acho, sim, que uma mulher pode decidir manter seu cabelo alisado, se ela quiser, se se sentir bem assim. O que não pode continuar acontecendo é que ela não tenha a opção de manter seu cabelo natural.

Por tudo isso, manter o cabelo natural não é só uma questão de estética e não é de jeito nenhum uma moda, mas é, sim, uma questão de identidade. E que bom que cada vez mais as mulheres e homens têm assumido sua identidade com seus blacks, cachos, tranças, turbantes! Chega de tentar se encaixar nesses padrões preconceituosos!

Hoje em dia eu amo meu cabelo, meus cachos, amo o volume que antes detestava. Espero que não seja preciso tantos anos para que as meninas de hoje em dia se deem conta de como seus cabelos são maravilhosos, como aconteceu comigo.


3 comentários sobre “Meu cabelo, minha identidade

  1. oi!! por conta do post do Cabelo, acabei lendo esse e adorei!! Também mudei nos últimos anos minha relação com o cabelo, só que foi parar de fazer “luzes” e assumir os meus brancos! Minha mãe até hoje me olha atravessado hahaha Mas está sendo muito bom!!! Todos esses padrões são opressivos, principalmente sobre as mulheres, a começar pelas negras, claro, mas também para todas os tipos e idades quando se refere ao corpo, ideiais de beleza etc. Fico com a sensação que isso é menos forte nos países europeus do que nos Latinos. Na Colômbia como era? beijinhos, bom domingo!

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    1. Oi, Karina! Veio parar nesse meu post velho, então, hahaha… velho, mas nem tanto.
      É verdade, nós mulheres sofremos opressões diversas com tudo o que é relacionado ao corpo. O próprio cabelo branco, no homem é sinal de maturidade, dizem que é até chamoso, mas na mulher é meio inaceitável. Que bom quando conseguimos quebrar esse ciclo, sair dessas prisões.
      Na Colômbia é bem parecido com o Brasil toda essa questão de procedimentos estéticos e preocupação com o corpo. Uma coisa que eu notei na cidade que morei é como as mulheres usam maquiagem! Usam bastante e pra ir, tipo, na padaria. É um pouco diferente de onde moro no Brasil e eu, que não uso nada de maquiagem praticamente, sempre me sentia meio deslocada, “mal arrumada”, rs. Com relação aos cabelos crespos e cacheados também é parecido. Mas assim como aqui tem um movimento forte atualmente de aceitação dos cabelos naturais, o que é muito bom!
      Um abração!

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