Parem de chamar a Dilma de vaca!

Sei que algumas pessoas podem vir ler isso por achar que vou defender a Dilma (no sentido político) de algum modo e por isso me criticar. Sei que algumas pessoas, mesmo após lerem o texto, vão achar que ele é para falar da Dilma, em específico e sobre seu governo. Então, antes de começar, eu deixo dois avisos: 1 – exercite sua interpretação de texto, não custa nada. 2 – Se ainda assim é difícil entender, explico: esse texto é sobre respeito às mulheres. Agora sim, podemos começar.

Sei que o Brasil está passando um por uma crise econômica e política, embora alguns não queiram aceitar e outros exageram mais do que realmente é. Todas as críticas a todos os governos são importantes e necessárias. Mas algo me incomoda: ver que muitas pessoas insatisfeitas, ao invés de fazerem críticas consistentes, baseadas em questões realmente políticas e econômicas não se sentem nenhum pouco envergonhadas em partir para um tipo de crítica agressiva, num nível meio pessoal, em alguns momentos. Não acho interessante levar esse tipo de crítica a sério, na maioria das vezes é melhor ignorar. Mas quando a “crítica” expressa machismo, racismo ou qualquer tipo de preconceito e discurso de ódio, aí não é possível deixar passar como se não fosse nada.

Vamos pensar um pouquinho antes de responder à seguinte pergunta: o que significa chamar uma mulher de vaca? Sabemos que, ao longo dos séculos, as mulheres têm sido colocadas sempre em uma posição inferior em relação aos homens na sociedade. O simples fato de ser mulher faz com que suas atitudes, a maneira como se veste ou como se expressa sejam avaliadas (pelos homens) em uma escala que a classifica como respeitável ou não. Palavras como “vaca”, “vagabunda”, “puta”, etc., não expressam nada além de um preconceito de gênero, de um machismo que tenta impor às mulheres o que é aceitável ou não e, portanto, impor como elas deveriam se comportar. Saia curta é coisa de puta, batom vermelho é coisa de vaca, falar alto é coisa de oferecida, sair sozinha é coisa de quem está pedindo para ser violentada. Não preciso continuar com os exemplos, vocês conhecem todos eles, né? Nós, mulheres, os conhecemos bem, porque somos julgadas todos os dias com base nesse tipo de coisa.

Ou seja, chamar uma mulher de vaca não constrói nenhum tipo de crítica sobre sua ideologia política, não agrega em uma discussão sobre problemas sociais, não resolve a economia brasileira, não debate argumentos sobre que tipo de sistema político devemos ter. Chamar uma mulher de vaca também não faz ninguém parecer mais inteligente ou superior a ela, pelo contrário,  demonstra que uma pessoa que faz esse tipo de comentário aparentemente não tem uma base de conhecimento suficiente para construir um argumento. Em resumo, não expressa nada além de uma agressão moral, baseada em nada, ou melhor, baseada no machismo.

Dito isto, vamos tentar imaginar agora o que leva uma pessoa a chamar a presidenta de “vaca”, “vagabunda” ou outras ofensas desse nível para baixo? (Aliás, abro um parêntesis para dizer: não é curioso que o simples fato de ela preferir ser chamada de presidentA (com A), uma palavra que existe, basta procurar no dicionário, cause incômodo em tantas pessoas? Isso é simbólico e sintomático.) Eu me pergunto duas coisas. Primeiro, que tipo de crítica é essa? De que forma você, insatisfeito com a administração dela, está fazendo uma crítica ao seu governo, que é o que – supostamente – te incomoda? Segundo, será que se fosse um político homem, ele seria criticado nesses termos? Será que ele seria ofendido pessoalmente com uma gama de expressões construídas em cima de um preconceito de gênero? Eu acho que não. No máximo, seria chamado de “filho da puta”, o que, como vocês podem perceber, continua sendo uma agressão contra a mulher, não contra o homem.

Me lembrei que há um tempo atrás assisti um documentário sobre os governos de esquerda na América Latina. Nesse documentário há uma entrevista com a presidenta da Argentina, Cristina Kirchner, e o entrevistador, em certo momento, perguntou a ela quantos pares de sapato ela possuía. Notem como o tema tem a ver com o documentário (só que não). Ela prontamente respondeu algo assim: “muitos. Mas se eu fosse homem você me perguntaria quantos ternos caros eu possuo?”. O entrevistador ficou sem graça, já que certamente não teria feito essa pergunta a um presidente. Por que, então, as mulheres são tratadas dessa maneira?

Me lembrei ainda de outro documentário chamado Miss Representation, que fala justamente sobre como as mulheres nunca são representadas por seus atributos intelectuais, esportivos ou acadêmicos. Ao se falar de grandes líderes mundiais, de empresas ou governos, a abordagem é sempre no sentido de como essas mulheres se vestem, ou como estão gordas ou magras, jovens ou velhas. As atletas não são reconhecidas por suas conquistas esportivas, mas pelo seu corpo super “em forma”, por exemplo.

A questão é: tenhamos honestidade em reconhecer que chamar alguém de vaca, seja a Dilma, seja a vizinha, seja quem for, não é uma crítica séria e construtiva. Diz mais sobre você que sobre quem está tentando criticar, pois é a reprodução do machismo pura e simplesmente. Quer criticar o governo, a administração, sua professora na faculdade, qualquer mulher? Use argumentos embasados no tema que você quer criticar. Nenhuma mulher merece ser chamada de vaca.


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